Psicóloga Tânia Conjo alerta para impacto profundo da violência sexual em crianças: “É um trauma que ultrapassa o corpo e a mente infantil”

Maputo (O Destaque) –O Hospital Central de Nampula (HCN), maior centro de referência do norte de Moçambique, foi recentemente palco de um episódio que voltou a evidenciar a vulnerabilidade da infância na região. Na manhã do último domingo, uma menina de apenas 10 anos, identificada pelas iniciais E.J., deu à luz um bebé do sexo feminino, fruto de uma violação.

A menor, proveniente do distrito de Mecuburi, chegou à unidade hospitalar com algumas complicações. No entanto, o parto foi realizado com sucesso por uma equipa da maternidade, que conseguiu garantir a vida da mãe e do recém-nascido. Apesar do alívio da família, o caso gerou grande preocupação social.

A gravidez foi resultado de uma violação, cujo suposto autor, segundo a família, já se encontra detido. Acácio Januário, irmão mais velho da vítima, contou ao O Destaque que a menina manteve o caso em silêncio por algum tempo, “alegadamente devido a ameaças do agressor”. A situação só foi descoberta por volta do quarto mês de gestação.

Januário, irmão mais velho da menor, partilhou o choque vivido pela família e o alívio sentido após o desfecho hospitalar. “Conhecendo o risco que ela podia correr devido à idade, já estávamos sem esperança. Mas, pela graça de Deus, o milagre aconteceu. Os médicos foram instrumentos nas mãos do poder divino e o impossível tornou-se realidade”, relatou. 

Ele também descreveu o momento de tensão vivido antes do parto: “Já estava tudo preparado para uma cirurgia. A menina encontrava-se no bloco operatório e, de repente, entrou em trabalho de parto e foi normal. Estou triste porque a infância da minha irmã foi interrompida.” Desabafou

Para a esfera da psicologia, o caso expõe uma situação de extrema vulnerabilidade, que exige respostas para além da assistência médica. Em entrevista a O Destaque, a psicóloga Tânia Conjo classificou o episódio como “muito sensível e complexo, pois trata-se de uma criança vítima de violência sexual, gravidez precoce e, além disso, não podemos ignorar o impacto físico e emocional de um parto nessas condições.”

A psicóloga detalhou as consequências do ponto de vista psicológico e social para a vítima: “Quando falamos de uma criança que sofreu violência sexual, engravidou precocemente e ainda enfrentou um parto de risco, estamos diante de um quadro de extrema vulnerabilidade física, emocional e social que ultrapassa em muito aquilo que um organismo e uma mente infantil conseguem suportar.”  Detalhou

Ela sublinha que, do ponto de vista psicológico, a violência sexual por si só já constitui um trauma profundo, “capaz de provocar medo intenso, sentimentos de desamparo e despersonalização. Quando esse trauma resulta numa gravidez indesejada, o impacto torna-se ainda mais grave, porque a criança passa a carregar, dentro do próprio corpo, a materialização da violência que sofreu. E, em alguns casos, podemos ter uma mãe que rejeita o seu próprio filho.” 

No plano social, a psicóloga alerta para as camadas adicionais de sofrimento: “Essa criança pode enfrentar estigmas, julgamentos e isolamento, especialmente em contextos onde a violência sexual ainda é silenciada ou onde a vítima é vista como culpada.”

Conjo diz ainda que esta situaçãoafecta directamente em muitos ciclos desta criança “A gravidez precoce interrompe a vida escolar, afasta a criança do convívio com os pares e coloca-a numa posição de responsabilidade que ela ainda não está preparada para assumir. O parto de risco, por sua vez, pode deixar experiências dolorosas no ambiente hospitalar, reforçando a sensação de insegurança e trauma”, explicou a psicóloga.

Ela alertou ainda para as possíveis consequências a longo prazo, referindo que a criança, “futuramente, já adulta, poderá enfrentar sérias dificuldades em estabelecer novos relacionamentos amorosos e até mesmo em tornar-se mãe novamente”. Por isso, reforça, a intervenção deve ser imediata e contínua: “Esta criança certamente precisará de um acompanhamento psicossocial. Falo de um atendimento psicológico especializado, suporte familiar, apoio da escola e, possivelmente, um acompanhamento a longo prazo.”

O Hospital Central de Nampula reforçou o apelo à sociedade para que reflicta e actue com responsabilidade, sublinhando a importância de promover a sensibilização em torno da maternidade e paternidade responsáveis, bem como do direito à infância plena e protegida.

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