Escândalo académico exposto: estudantes forçados à “nhonga” para segurar o canudo na universidade pedagógica de Maputo

Maputo (O Destaque) –A Universidade Pedagógica (UP), reconhecida como uma das instituições de ensino superior mais prestigiadas do país, enfrenta agora acusações graves de práticas administrativas irregulares. Um ex-estudante da Faculdade de Engenharia e Tecnologia (FET) denunciou ao jornal O Destaque a existência de um suposto esquema bem articulado, envolvendo cobranças ilícitas e atrasos propositados no processo de graduação, com o objectivo de extorquir valores financeiros aos finalistas.

Segundo a denúncia, a progressão académica, até à emissão do diploma, estaria condicionada ao pagamento de valores informais a docentes e membros da estrutura administrativa. O processo envolveria três fases distintas, supervisão da monografia, intervenção do oponente e, por fim, os serviços da Direcção do Curso, totalizando, segundo a fonte, entre 20 mil e 30 mil meticais.

O denunciante, sob anonimato, afirma que docentes responsáveis pela supervisão dificultam propositadamente a correção e validação dos trabalhos. “Tudo isso vem do facto de os docentes quererem que o estudante pague”, declarou, explicando que as exigências surgem disfarçadas sob a forma de convites para “um almoço, algo, combustível”. Situação semelhante se verifica com os oponentes, que também impõem exigências financeiras para permitir o avanço do processo.

Já na fase final, a Direcção do Curso seria responsável por atrasos na marcação da defesa e na entrega de documentos. “Tem que pagar para poder correr com os certificados”, denuncia o ex-estudante, que aponta ainda para uma estratégia deliberada de retenção dos estudantes para prolongar a cobrança de valores informais.

Além disso, o relato inclui acusações sobre a venda de notas em disciplinas regulares. “Fala-se de 5, 10 mil [meticais] para uma cadeira”, afirma a fonte, descrevendo um ambiente de pressão psicológica que empurra os alunos a aceitar tais práticas por receio de reprovação. Casos de estudantes que, apesar de terem concluído os seus trabalhos desde 2017 ou 2018, ainda aguardam graduação, foram mencionados como prova do carácter recorrente e prolongado do problema.

“Não temos conhecimento”, diz direcção da UP

Em resposta às denúncias apresentadas pelo jornal O Destaque, a Direcção da Universidade Pedagógica, por meio de um representante, reconheceu que o processo de defesa académica pode ser complexo, mas afirmou não ter qualquer conhecimento formal das práticas apontadas.

O que eu posso dizer aqui é que nós não temos esse conhecimento de atraso na marcação de sucessos”, declarou o porta-voz, sublinhando que a instituição mantém canais abertos de comunicação com os estudantes. Acrescentou ainda que é mais preocupante para a universidade que as denúncias sejam feitas publicamente, em vez de serem reportadas internamente.

Sobre os alegados atrasos, o representante explicou que estes podem estar associados à fase de pré-avaliação, um procedimento adoptado pelas faculdades com o objectivo de assegurar a qualidade dos trabalhos antes da defesa. “Se houver alguma coisa a ser melhorada, é melhorada”, disse, admitindo que esse processo pode, por vezes, prolongar o tempo previsto.

Embora a Reitoria negue ter conhecimento concreto de situações de extorsão conforme descritas, reconhece que a gravidade das denúncias “não pode ser ignorada” e garante que haverá uma abordagem direta junto das faculdades para apurar o que se passa.

Já o denunciante insiste que a intervenção deve vir da direcção máxima da universidade, argumentando que o alegado esquema está enraizado ao nível das direcções de curso.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *