Cabo Delegado — O ambiente empresarial em Cabo Delgado continua sob brasas. O propalado “braço de ferro” entre os operadores económicos locais e as subempreiteiras do projecto Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies, ganhou novos contornos esta semana. Apesar das sucessivas denúncias de exclusão, o empresariado da província queixa-se de um isolamento sistémico que os impede de “sentir o cheiro da comida”, mesmo estando encostados à panela de Afungi.
Durante um seminário sobre conteúdo local realizado na última terça-feira (10.03), o presidente da CTA em Cabo Delgado, Mamudo Irache, rompeu o silêncio para descrever um cenário de asfixia económica. Segundo o dirigente, o modelo de “enclave” adoptado em Afungi está a dizimar sectores vitais como a hotelaria, restauração e transportes.
“Muitos restaurantes e hotéis estão praticamente paralisados. O sector da pesca, por exemplo, investiu para responder à demanda, mas agora os pescadores não têm onde escoar o produto, porque quem devia comprar está fechado em Afungi”, denunciou Irache, apelando à TotalEnergies que encontre um “meio-termo” que permita a circulação da riqueza nas vilas de Palma, Mocímboa da Praia e na cidade de Pemba.
Para além da barreira física, existe um fosso de comunicação. O sector privado alega que as empresas subcontratadas pela multinacional francesa operam numa espécie de “clandestinidade institucional” perante o empresariado local. Sem canais de interlocução claros, as empresas de Cabo Delgado tornam-se meras espectadoras do maior investimento energético do continente, contrariando as directrizes de conteúdo local defendidas pelo Governo.
A insatisfação é generalizada e o empresariado recorre à sabedoria popular para ilustrar a crise: “uma só mão não consegue amarrar um feixe de lenha”. A mensagem para a TotalEnergies e para o Executivo é clara: sem uma abertura efectiva da cadeia de valor, o projecto de gás corre o risco de ser uma ilha de prosperidade num mar de estagnação local.
O “braço de ferro” promete continuar, enquanto as promessas de inclusão não passarem do papel para as facturas das pequenas e médias empresas (PME) de Cabo Delgado.
