Feijó diz que para travar terrorismo não basta treinar militares, é preciso garantir logística e actuar na componente social

Maputo (O Destaque) – O investigador e analista João Feijó defende que o combate ao terrorismo em Cabo Delgado não pode depender apenas da resposta militar, considerando necessária uma estratégia mais ampla que envolva segurança, desenvolvimento, inclusão social e uma maior aproximação entre as Forças de Defesa e Segurança e as comunidades.

Em entrevista ao Jornal O Destaque, Feijó reconheceu a importância da componente militar, mas sublinhou que esta deve ser acompanhada por reformas internas, melhor preparação das tropas, capacidade logística, treino especializado e maior conhecimento da realidade social e cultural de Cabo Delgado.

Para o investigador, a resposta deve incluir também estratégias psicossociais e uma relação mais próxima com as populações locais. Feijó apontou a necessidade de os militares conhecerem e falarem as línguas locais, melhorarem a comunicação com as comunidades e desenvolverem acções capazes de conquistar a confiança das populações.

“A resposta tem que ser holística”, defendeu, acrescentando que o combate ao terrorismo deve ser acompanhado por investimentos na educação, saúde e desenvolvimento das comunidades afectadas. O analista sugeriu, por exemplo, que professores e médicos militares possam desempenhar funções directamente nas zonas afectadas pelo conflito, como forma de aproximar o Estado das populações.

Feijó considera ainda que o problema de Cabo Delgado não pode ser separado das questões económicas e sociais. Na sua leitura, a falta de oportunidades, a exclusão e a pressão sobre o acesso à terra podem alimentar o descontentamento das comunidades e criar condições favoráveis à instabilidade.

O investigador defendeu, por isso, uma maior diversificação económica, mais oportunidades para a população, reformas no sector da Justiça e a criação de canais de participação que permitam reconstruir o pacto social na província.

Sobre a percepção de que a insurgência não teria rosto, Feijó discordou. Segundo o analista, os líderes e membros dos grupos armados são conhecidos e os seus nomes já foram divulgados por autoridades e organizações que acompanham o conflito.

Feijó também questionou algumas opções de formação e desenvolvimento concentradas na capital, defendendo que a distância entre os centros de decisão e as populações do Norte pode reforçar sentimentos de abandono e exclusão.

Na sua análise, o desafio de Cabo Delgado vai além do terrorismo. Está igualmente ligado à necessidade de criar oportunidades económicas e reduzir desigualdades históricas entre regiões. Para Feijó, sectores como agricultura, turismo, algodão, castanha de caju e tabaco podem gerar mais emprego e ter maior impacto directo na redução da pobreza do que uma economia excessivamente dependente do gás.

O investigador alerta ainda para o crescimento de sentimentos de exclusão associados à competição por empregos e oportunidades, considerando que este fenómeno não se limita ao Norte de Moçambique, mas atravessa diferentes sociedades da região.

Para João Feijó, a resposta ao terrorismo exige, assim, mais do que operações militares: requer um Estado mais próximo das comunidades, desenvolvimento económico inclusivo e políticas capazes de responder às causas sociais que alimentam o descontentamento.

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