Transfusão proibida: a fé que desafia a prática médica

Zambézia (O Destaque) – A recusa de transfusões de sangue total por parte de membros das Testemunhas de Jeová continua a suscitar um intenso debate no seio da comunidade médica e social, colocando frente a frente a liberdade de crença e a urgência dos cuidados de saúde, sobretudo em situações limite em que a vida do doente se encontra em risco iminente.

Segundo Pita Rui Dola, membro da Comissão de Ligação Hospitalar das Testemunhas de Jeová em Quelimane, a posição da igreja não significa a rejeição da medicina, mas sim a defesa da consciência individual e do direito de cada paciente escolher os procedimentos terapêuticos aos quais aceita ser submetido.

Para ilustrar a perspetiva médica defendida pela denominação religiosa em casos de hemorragia grave, Dola recorre a uma analogia simples e elucidativa: “Se não taparmos o furo de um balde, a água continuará a escorrer e, mesmo que se adicione mais água, o balde nunca ficará cheio.” Com esta comparação, o representante sustenta que a prioridade clínica deve focar-se, primordialmente, na identificação e contenção da fonte de sangramento.

O representante esclareceu ainda que a doação de sangue não é expressamente proibida pela doutrina, situando a grande questão na aceitação da transfusão direta. Dola sublinhou que a escolha é estritamente pessoal: enquanto alguns fiéis ponderam aceitar determinados fracionamentos de componentes sanguíneos e técnicas médicas alternativas, outros preferem recusá-los integralmente.

Esta conjuntura evidencia a importância de um diálogo permanente e rigoroso entre as equipas de saúde e os doentes, permitindo compreender os ditames da fé e avaliar, em consciência, as alternativas terapêuticas adequadas a cada quadro clínico.

O grande desafio da medicina moderna, em contextos de emergência, reside na capacidade de harmonizar o respeito incontornável pela autonomia do paciente com o dever deontológico dos médicos em prestar socorro e salvar vidas.

Pita Rui Dola prestava estas declarações à margem de uma sessão clínica subordinada ao tema “tratamento médico das Testemunhas de Jeová: uma abordagem colaborativa”, um encontro que reuniu profissionais de saúde e estudantes com o propósito de promover a reflexão e o conhecimento sobre opções terapêuticas sem o recurso à transfusão de sangue total.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *