Gaza: entre a reconstrução e o dilema da sobrevivência pós-cheias

Gaza (O Destaque) — Após semanas de incerteza e drama sob o domínio das águas, a província de Gaza começa a desenhar, ainda que timidamente, o seu regresso à normalidade. O cenário de devastação, que outrora isolou distritos inteiros e cortou vias vitais de circulação, dá agora lugar a um esforço colectivo de reconstrução, onde a resiliência moçambicana é testada “pedra a pedra”.

Com a descida do nível das águas, o movimento de retorno às zonas de origem intensificou-se. Famílias camponesas, que viram os seus lares serem assaltados pela fúria das cheias, regressam agora com um olhar ambivalente: a mesma água que destruiu as suas sementeiras é agora implorada para manter a humidade nos campos de produção antes que o sol seque tudo na totalidade.

Enquanto a cidade do Chókwè já respira o fluxo do comércio, em Xai-Xai o ambiente ainda é de limpeza e remoção de lodo. Contudo, as cicatrizes da destruição permanecem profundas. No troço Chókwè-Guijá, a ponte de Macarretane desabou e a linha férrea continua intransitável, deixando um rasto de postes de energia tombados e infraestruturas degradadas.

A crise em Gaza revelou as duas faces da moeda humana. Por um lado, o espírito de ajuda ao próximo manifestou-se em camiões carregados de água potável distribuída gratuitamente. Por outro, a necessidade tornou-se um mercado informal lucrativo.

No distrito de Guijá, que permanece às escuras, a “criatividade” comercial cobra o seu preço: 50 meticais é o valor exigido por jovens que utilizam geradores privados para carregar telemóveis, enquanto agentes de moeda electrónica operam como casas de câmbio informais com taxas arbitrárias. É o que alguns analistas locais chamam de “estratégia de controlo pela precarização”, onde o lucro se sobrepõe ao humanismo.

Apesar das perdas, em Mapai, a chegada dos primeiros camiões de abastecimento renovou o alento da comunidade. A figura da “Tia Esperança” tornou-se o símbolo desta resistência, inspirando vizinhos a sobreviverem às sequelas das chuvas intensas que marcaram o início de 2026.

Enquanto uns ainda choram as perdas materiais e afectivas, outros aguardam, de forma cínica, o próximo episódio para “nhongar” termo local para tirar proveito ilícito de uma situação. A realidade pós-cheias em Gaza mostra que a reconstrução física das estradas pode ser mais rápida do que a cura das feridas sociais e éticas deixadas pela precarização da vida.

Fonte: icsgaza

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