Maputo( O Destaque)-Um episódio invulgar envolvendo um voo declarado como militar vindo da Guiné-Bissau colocou as autoridades portuguesas em alerta e levantou novas preocupações sobre o uso indevido de canais diplomáticos e militares para movimentação de grandes somas de dinheiro. O protagonista: Tito Gomes Fernandes, empresário e figura próxima do ex-presidente guineense Umaro Sissoco Embaló.
Fernandes foi intercetado no último domingo no Aeroporto Militar de Figo Maduro, em Lisboa, com cerca de cinco milhões de euros em notas, transportados num jato privado classificado como voo militar. A operação foi conduzida pela Polícia Judiciária e pela Autoridade Tributária, após uma denúncia anónima.
O empresário acabou por ser libertado menos de 48 horas depois, sem sequer prestar declarações a um juiz. Segundo fontes ligadas ao processo, a tipificação do crime presumivelmente contrabando, cuja moldura penal não ultrapassa os cinco anos, não justificaria medidas de coação.
A bordo do mesmo voo encontrava-se a ex primeira-dama guineense, que não foi detida, mas cuja presença intensificou o interesse político e diplomático do caso. A quantia, por sua vez, foi apreendida para averiguações.
O episódio acontece num momento delicado para a Guiné-Bissau, que vive as consequências de um golpe de Estado ocorrido a 26 de novembro, com o afastamento de Embaló e o agravamento da crise política interna.
As autoridades portuguesas investigam agora não só a origem e o destino do dinheiro, como também a eventual violação de protocolos aeronáuticos e diplomáticos associados a voos militares.
Num vídeo publicado nas redes sociais, Tito Gomes Fernandes negou ter sido detido, mas o processo segue em investigação, com implicações que podem ultrapassar fronteiras e revelar muito sobre os circuitos por onde o poder, o dinheiro e a impunidade às vezes viajam.
