Por Ramos António Amine, Professor de Filosofia
O Destaque — Cheguei a um lugar onde ninguém sabia o meu nome. Setenta e oito quilómetros depois da capital provincial, a estrada termina e começa o silêncio. Foi ali que arrendei uma casa humilde demais para um homem só, e solitária demais para não desconfiar de mim.
Havia um cão.
Não era daqueles cães de merda. Não era meu. Pertencia aos donos da casa. Chamava-se Tarzan, como se o nome quisesse lembrar-me do selvagem de outrora. Logo à chegada, disseram-me que o cão não ficava comigo, mas ficou. Os donos partiram, haviam comprado outra casa perto da estrada Nacional. O cão, porém, não os seguiu. Facto que torna plausível a ideia de que há fidelidades que não acompanham pessoas, acompanham lugares.
Durante algum tempo da minha estadia, Tarzan vigiou a casa e a minha solidão. Isso acelerou a eleição dele como meu animal de estimação, embora nunca o tenha sido de facto. Depois, foi-se embora. Para a casa dos donos, na outra margem do rio.
Angustiado de tanto o procurar, ouvi dos vizinhos que Tarzan seguira os antigos donos. A explicação pareceu-me suficiente. Até ao dia em que deixou de ser.
Sempre que eu viajava para a capital provincial, em visitas à família, regressava e encontrava o cão. Nunca antes. Nunca durante. Sempre depois do meu regresso. Como se o tempo dele não fosse o mesmo que o meu. Como se obedecesse a um calendário invisível.
Ontem voltei de férias. Não o encontrei.
Aceitei a ausência de Tarzan como quem aceita o mundo: sem perguntas.
Mas hoje, logo cedo, Tarzan estava no portão, à espreita. Não latiu. Não festejou. Apenas estava. Como quem diz: chegaste, Ramos.
Pergunto-me: como sabe o cão que regressei?
Talvez não saiba. Talvez sinta. Há criaturas que não precisam de avisos, chamadas ou mensagens. Reconhecem o retorno como quem reconhece um cheiro antigo num inquilino novo.
Ou talvez Tarzan não seja apenas um cão.
Talvez seja o sentinela do intervalo entre a minha ausência e o meu regresso. O guardião silencioso de quem chega a um lugar estranho tentando fazer dele morada. Há quem diga que os cães reconhecem passos. Eu suspeito que reconhecem destinos.
E talvez, no fundo, Tarzan não esteja a vigiar a casa. Talvez esteja a vigiar a minha permanência no mundo, certificando-se de que, apesar de tudo, ainda não recebi. Talvez.
