por: Ramos António Amine, Professor de Filosofia
O Destaque — Conhecendo bem a minha clássica paixão por eles, um amigo meu, decidiu presentear-me com um charuto. Por viver num distrito longínquo de uma província vizinha, preferiu enviá-lo por intermédio de um colega seu. Este, porém, não chegou a entregar-me o presente, pois eu residia longe do distrito onde ele desembarcara. Algum tempo depois, decidiu confiar o charuto a um outro amigo meu.
Quando o meu amigo finalmente recebeu o presente, ligou-me, surpreso, e disse:
— O tal presente é este? Mas que loucura!
A frase ficou a ecoar em mim. Não pelo charuto, pequeno, silencioso, quase irrelevante, mas pelo espanto diante do caminho excessivo percorrido para cumprir um gesto simples de amizade. Um objecto banal convertera-se quase em absurdo pelo número de mediações que exigiu. E foi então que a palavra loucura deixou de ser apenas uma exclamação casual e passou a ser uma interrogação directa.
Quem são, afinal, os loucos?
Serão apenas aqueles que se sentem perseguidos por personagens criados no seu próprio imaginário, vozes que só eles escutam, ameaças que apenas eles veem? Se assim for, trata-se de uma loucura íntima, trágica, que fere sobretudo quem a carrega.
Mas e os que perseguem personagens reais? Generais que deflagram guerras, soldados que torturam em nome da obediência, polícias que matam em nome da ordem, políticos que controlam em nome da estabilidade — o que são? Não deliram também, ainda que com ideias socialmente aplaudidas, como segurança, progresso ou interesse nacional?
Costuma dizer-se que são loucas as pessoas que se acreditam Cristo. A sociedade apressa-se a vigiá-las, diagnosticá-las, isolá-las, tratá-las. Entretanto, raramente questiona os mortais que se sentem deuses por causa do dinheiro e do poder que possuem, indiferentes à dor dos outros. Esses não curam, não salvam, não carregam cruz alguma. Limitam-se a decidir destinos.
Há uma loucura que fala sozinha nas ruas e outra que assina decretos. Uma é visível, frágil e desarmada; a outra veste farda, fato ou gravata e apresenta-se como virtude. Mas é esta última que organiza a violência, normaliza a injustiça e transforma o sofrimento humano em mera rubrica pública.
Talvez, afinal, a verdadeira loucura não esteja no excesso de imaginação, mas na frieza com que se transforma a vida humana em meio para fins abstratos. O charuto que percorreu distritos e mãos para cumprir um gesto de amizade pode parecer ridículo. Mas muito mais louco é o mundo que aceita percursos infinitamente mais cruéis para satisfazer ambições de poder que não passa de efémero.
E assim, a pergunta permanece incômoda:
quem são os verdadeiros loucos — os que sofrem com as suas próprias alucinações ou os que forjam sistemas inteiros para fazer os outros sofrerem em nome das suas certezas decadentes?
