“Quando é um Católico a Governar, Portugal apoia”, acusa antigo Presidente da Guiné-Bissau

Maputo (O Destaque) -Num ataque feroz e sem precedentes, o Presidente deposto da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, acusou na quinta-feira (27) Portugal de hostilidade sistemática contra líderes muçulmanos, argumentando que a sua queda do poder foi, em parte, orquestrada por essa animosidade. Já instalado no Senegal, para onde fugiu após o golpe militar, Embaló lançou estas duras críticas numa entrevista televisiva.

“Cada vez que há um Presidente muçulmano, eles são muito hostis”, desabafo  o ex-líder guineense, referindo-se a políticos e órgãos de comunicação social portugueses. Num excerto da entrevista ao canal 1 Africa TV, partilhado nas redes sociais, Embaló sublinhou que a Guiné-Bissau é um exemplo de coabitação pacífica entre muçulmanos, católicos e protestantes “o que não se vê em Angola” , mas que, mesmo assim, a atitude de Portugal permanece negativa.

Assim que há um Presidente que se chama Mamadou, Omar ou Ibrahim, eles tornam-se muito hostis”, afirmou, sugerindo um preconceito enraizado. Esta posição surge num contexto em que, ironicamente, a oposição na Guiné-Bissau tinha frequentemente acusado o Estado português de conivência com o regime de Embaló.

Golpe militar instala novo líder de transição

Enquanto o ex-Presidente proferia as suas acusações a partir do exterior, as Forças Armadas da Guiné-Bissau consolidavam o controlo do país. O Alto Comando Militar investiu o general Horta N’Tam como novo Presidente da Transição, numa cerimónia realizada no Estado-Maior General das Forças Armadas.

N’Tam justificou a acção militar como necessária para estancar “uma ameaça crescente que podia pôr em causa a democracia e a estabilidade política do Estado guineense”. Na sua declaração, lida em português, o novo líder de transição referiu-se a uma “ameaça portadora de ingerência do Estado” que era imperioso “prevenir e travar”.

O golpe, que ocorreu antes da divulgação dos resultados das eleições gerais de 23 de novembro, resultou na destituição de Embaló, na suspensão do processo eleitoral, no encerramento de órgãos de comunicação social e na imposição de um recolher obrigatório. Paradoxalmente, os militares deram posse a Ilídio Vieira Té, um antigo homem de confiança de Embaló, como primeiro-ministro.

Portugal apela à contenção e à normalidade

Face à instabilidade no país irmão, o Governo português, através do ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, optou por uma posição cautelosa. Rangel recusou fazer “especulações” ou “interpretações” sobre os eventos e apelou à contenção no uso da força, referindo-se à Guiné-Bissau como um Estado “amigo”.

O Governo apenas verifica que há uma falta de regularidade no funcionamento institucional, que houve uma quebra feita pela força e faz um apelo, a par de outros países amigos da Guiné-Bissau e organizações internacionais, no sentido de se voltar à normalidade”, declarou o chefe da diplomacia portuguesa.

O cenário na Guiné-Bissau permanece em forte tensão, com um ex-Presidente no exílio a lançar acusações graves e um novo poder militar a tentar legitimar-se, enquanto a comunidade internacional observa com apreensão o desenrolar dos acontecimentos neste frágil país da África Ocidental.

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