Maputo (O Destaque) – Um dia após a ordem de retirada emitida pelas autoridades municipais de Maputo, a Praça dos Combatentes voltou a ser palco de um cenário atípico. Os vendedores informais a ocupar grande parte dos passeios. A situação que aparentava normalidade no trânsito à primeira vista, revela-se um desafio contínuo para a fiscalização e organização do espaço urbano na capital.
Apesar da intensificação da presença da Polícia Municipal e das constantes acções de sensibilização, os vendedores mantêm-se firmes nas suas posições.
A sua persistência contrasta com as alegações das autoridades de que existem espaços disponíveis em mercados designados, como o “Mucoreano”.
A equipa de reportagem do “O Destaque” esteve no terreno e constatou a veracidade das afirmações das autoridades, encontrando várias bancas desocupadas no Mercado Mucoreano e em, pelo menos, outros 18 mercados espalhados pela cidade de Maputo.
“Não temos para onde ir, meu irmão. Aqui é onde a gente consegue tirar o pão para os nossos filhos”, desabafa Dona Graça, vendedora de amendoim há mais de uma década na Praça dos Combatentes.
A sua voz carregada de desespero, transmite o sentimento de muitos outros que resistem à mudança.
“Mandaram-nos para o Mucoreano, mas lá não há movimento. Quem é que vai comprar lá? A gente morre à fome”, acrescenta, apontando para o pouco movimento de clientes no mercado para onde foram supostamente encaminhados.
Outro vendedor, João Manuel, que comercializa capulanas e outros artigos de vestuário, partilha da mesma frustração.
“Eles dizem que há espaço, mas não nos dão condições. Tinha de haver uma solução que nos desse rendimento. Aqui a gente está na rua, mas a clientela já nos conhece. Se vamos para um sítio novo, temos de começar do zero, e não é fácil”, explica, enquanto arruma as suas mercadorias discretamente para evitar a atenção da polícia.
A resistência dos vendedores não é apenas uma questão de subsistência, mas também de percepção.
Muitos sentem que as alternativas propostas não são viáveis, ou que as condições oferecidas nos mercados não compensam a perda do fluxo de clientes que encontram nos passeios da Praça dos Combatentes.
A informalidade, para eles, é uma questão de sobrevivência, e não de escolha.
O porta-voz da Polícia Municipal de Maputo, Naftal Aly, reiterou o compromisso das autoridades em garantir a ordem e a organização do espaço público.
“A ordem de retirada foi dada com base em planos de reordenamento urbano. Não podemos permitir que os passeios, que são para os peões, continuem a ser ocupados por actividades comerciais. Isso cria congestionamentos, dificulta a circulação e pode até causar acidentes”, afirmou.
Sobre as alegações dos vendedores de falta de espaço nos mercados, o porta-voz foi categórico.
“Isso não é verdade. Temos registo de inúmeras bancas desocupadas em vários mercados da cidade, incluindo o Mucoreano. A nossa equipa tem feito um trabalho contínuo de sensibilização, mostrando aos vendedores os locais disponíveis e as condições para a sua reinstalação. O que acontece é que alguns resistem à mudança por conveniência, por já estarem habituados a um determinado ponto”, esclareceu o porta-voz da Polícia Municipal de Maputo.
O porta-voz sublinhou ainda que a Polícia Municipal continuará com as acções de sensibilização, mas não descarta o uso de medidas mais coercivas caso a desobediência persista.
“A nossa prioridade é o diálogo e a sensibilização. Queremos que eles compreendam a importância de cumprir a lei e de se organizarem. Mas, se for necessário, agiremos para garantir o cumprimento da ordem. A cidade de Maputo precisa de ser ordenada”, concluiu, Aly.
