Zuckerberg sob fogo cruzado: entre o lucro e a saúde mental de menores

O Destaque — O tribunal de Los Angeles tornou-se, esta quarta-feira (18), o epicentro de um debate global que coloca em causa a ética das gigantes tecnológicas. Mark Zuckerberg, o rosto da Meta Platforms, viu-se encurralado por evidências que contradizem o seu discurso oficial de protecção à infância. Confrontado com o facto de as suas plataformas serem desenhadas para reter utilizadores cada vez mais novos, o magnata manteve a defensiva, enquanto o mundo assiste ao desmoronamento da imagem de “segurança digital” apregoada pela empresa.

A acusação, liderada pelo advogado Mark Lanier, foi implacável. No centro do processo está a história de uma jovem californiana que, ao iniciar o uso do Instagram e do YouTube ainda na infância, desenvolveu quadros graves de depressão e pensamentos suicidas.

O momento de maior tensão ocorreu quando foram apresentados documentos internos da Meta, datados de 2018. Numa das apresentações, a directriz era clara: “Se queremos ganhar em grande com os adolescentes, temos de os atrair enquanto são pré-adolescentes”. Perante a evidência, Zuckerberg limitou-se a dizer que as palavras estavam a ser “mal interpretadas”, alegando que a empresa apenas estudava formas de criar versões seguras para menores, projectos esses que nunca saíram do papel.

O julgamento revelou ainda fissuras na comunicação interna da Meta. Um e-mail de Nick Clegg, vice-presidente de assuntos globais, enviado directamente a Zuckerberg, lançou a machadada final na tese de defesa: “Temos limites de idade que não são aplicados (ou serão inaplicáveis?)”.

Esta admissão de culpa interna sugere que, enquanto a Meta lucrava biliões de dólares, a fiscalização sobre quem acedia às redes era, na melhor das hipóteses, negligente. Para os analistas, o caso transcende as fronteiras americanas e serve de alerta para mercados como o moçambicano, onde a literacia digital ainda é deficitária e o controlo parental sobre o uso de smartphones é quase inexistente.

Enquanto rivais como o TikTok e o Snap preferiram fechar acordos extrajudiciais para evitar o desgaste público, Zuckerberg escolheu o confronto directo. A sentença deste caso poderá ditar novas regras de jogo para a economia da atenção.

Em Moçambique, onde o acesso às redes sociais cresce exponencialmente entre camadas mais jovens, o desfecho deste julgamento em Los Angeles poderá servir de bússola para futuras regulações sobre a protecção de dados e a integridade mental dos cidadãos na era digital.

Fonte: Reuters

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