Maputo (O Destaque) – A RENAMO, que outrora ostentava o estatuto de segunda maior força política de Moçambique, enfrenta o seu momento mais delicado desde o fim da guerra civil. Após a queda para a terceira posição nas eleições presidenciais de 2024, a “perdiz” mergulhou numa tempestade interna marcada por divisões, encerramento de delegações e expulsões de membros sem explicações claras.
A aprovação do partido ANAMOLA, liderado por Venâncio Mondlane, antigo rosto da RENAMO foi a centelha que parece ter acelerado a fragmentação. Em diversas delegações, foram emitidos despachos e abaixo assinados que culminaram na expulsão de membros eleitos democraticamente para assembleias municipais.
O Destaque falou com Inácio Julião, membro da Assembleia Municipal de Mecanhelas, que foi recentemente afastado sem aviso prévio. “Não conheço os motivos que me levaram a ser afastado. Fui eleito pelos munícipes. Escreveram o documento para me tirar, sem sequer me notificar antes. Até hoje não percebo,” desabafou.
Inácio acusa ainda a direcção distrital da RENAMO de agir com motivações políticas e sem respeito pelos princípios democráticos internos. “Fui afastado por cinco membros do conselho distrital. Eles é que decidiram tudo, sem me ouvir. E o mais grave: o delegado da RENAMO aqui parece mais um membro da FRELIMO.”
relatou ao Destaque que também foi removido do seu cargo sem qualquer aviso prévio: “Na minha pessoa, fui afastado do cargo de segundo vice da Assembleia Municipal da vila de Insaca”. No partido, assumo como delegado político da vila de Insaca. Os autores do meu afastamento são: o delegado político distrital, senhor Simão Malinga; o chefe dos Assuntos Sociais Distrital, senhor Nlaliha; o chefe do sector religioso, senhor Ofeci; Cecília Dua, da Liga Distrital; Orlando Simione, chefe da Mobilização Distrital; e o senhor Quenese, chefe das Finanças. “O presidente da Assembleia é quem escreveu o documento do meu afastamento”, afirmou.
A crise ameaça aprofundar-se. À medida que mais vozes são afastadas e a liderança se mantém em silêncio, cresce o risco de a RENAMO perder a sua identidade histórica como pilar da oposição. Para muitos, a perdiz já não canta e corre o risco de ser engolida pelo próprio eco.
