Por: Ramos António Amine, Professor de Filosofia
Num mundo que tende a expor tudo, torna-se urgente questionar a base moral que orienta a edificação dos alicerces da nossa convivência. A publicação, a partilha e a visualização converteram-se na linguagem convencionada de uma sociedade cada vez mais efémera. É neste contexto que a exposição deixou de ser exceção para se tornar regra.
O dever pelo dever cedeu lugar ao dever viral. A boa ação é captada e, em seguida, publicada com vista a visualizações e as visualizações tendem à monetização. É nesta lógica que se sustenta a solidariedade performativa: uma solidariedade que só se reconhece quando é filmada, fotografada ou exibida.
Movido pela honra mediática, o solidário performativo abandona o seu conforto e desloca-se em direção à vítima, seja ela das inundações, das cheias, das secas ou dos acidentes sociais, para dela se compadecer. Contudo, raramente vai só. Faz-se acompanhar de um quarto poder, ou de uma quinta coluna, no bolso, às costas, ou ainda às costas daqueles que o acompanham. Há, inclusive, quem se faça acompanhar por seguranças, como se a vítima transmitisse ameaça. É aqui que se consuma o aproveitamento mediático e, não raras vezes, político, por parte de indivíduos que se apresentam como detentores de elevada estatura moral.
O lema implícito do nosso tempo parece ser: “ajudo-te, sim, mas que tiremos uma fotografia”. O foco já não é a vítima, mas o mundo. O mundo deve saber quem ajudou quem, e quem foi ajudado por quem. Tudo isso impulsionado pela proliferação do ecrã digital, que seduz e reorganiza os critérios de reconhecimento social. As imagens bastam. A dor da vítima torna-se secundária.
Estou ciente de que não falta quem tente dissuadir-me, argumentando que não há problema algum em filmar uma boa ação e que, se os nossos antepassados não o faziam, era apenas porque viviam na idade da pedra. Tal argumento é facilmente refutável, na medida em que, mesmo neste tempo de exposição do absurdo, continuam a existir pessoas que realizam atos moralmente bons sem necessidade de os filmar para obtenção de gostos ou validação pública.
Reconheço também que a proliferação do ecrã digital contribuiu para a exposição de injustiças, desigualdades, pobreza e exclusão social. Nesse ponto, nada há a objetar. A denúncia pública pode ser um instrumento legítimo da consciência transformadora.
Entretanto, a solidariedade deveria seguir o mesmo fôlego da generosidade: dar antes de ser solicitado e oferecer sem exigir visibilidade. A ação filmada, quando se torna paradigma, tende menos à transformação do mundo e mais à exposição da nossa mediocridade moral. Ri-se do filmado, em vez de se combater o sistema que cria fossos e pune aqueles que neles caem.
É um fato que, o princípio mais profundo da natureza humana é o desejo ardente de ser estimado. Contudo, este princípio deveria conduzir-nos a ações boas em si mesmas. Uma ação boa em si é aquela que é realizada tendo em vista a intenção do sujeito. Aqui, nem o sujeito da ação, nem a consequência da ação assumem primazia. A intenção que precede o ato basta. Infelizmente, hoje, a boa ação clama por testemunhas.
A ajuda que sobrevive da exposição não cura; humilha. Não é oportuna; é oportunista. A solidariedade performativa é interesseira: mantém de pé o sistema que cria vítimas, enquanto simula combatê-lo. A “mão que dá”, que outrora era considerada mais nobre do que a que recebe, tornou-se hoje uma mão que exige testemunhas. Já não basta ajudar; é preciso provar que se ajudou.
A dádiva, que deveria ser silenciosa e discreta, converteu-se em espetáculo. E quando a ajuda exige palco, deixa de ser virtude para se tornar estratégia. Neste cenário, a vítima perde novamente a sua dignidade: primeiro, porque foi atingida pela tragédia; depois, porque a sua dor é instrumentalizada como capital simbólico. O sofrimento transforma-se em cenário e o necessitado em figurante.
A ética não se mede pela visibilidade do gesto, mas pela sua necessidade. Não é o alcance da publicação que confere valor moral à ação, mas a retidão da intenção que a antecede. Quando o bem precisa de ser exibido para existir, já não é bem: é marketing moral. E quando a ajuda depende do olhar alheio, deixa de ser solidariedade para se tornar transação simbólica.
A solidariedade autêntica não fotografa, não grava, não transmite em direto. Age. E, muitas vezes, age na sombra, longe das câmaras, onde não há aplausos nem recompensas. É precisamente aí que reside a sua grandeza. Num mundo saturado de imagens, talvez o verdadeiro gesto revolucionário seja ajudar sem que ninguém saiba. Enquanto confundirmos reconhecimento social com valor moral, continuaremos a alimentar uma solidariedade ruidosa, mas estéril; visível, mas vazia. Urge resgatar a ética do silêncio, onde o bem não se anuncia; cumpre-se. Só assim a solidariedade deixará de ser performativa para voltar a ser humana.
