Janeiro não começa no dia 1

Por: Arnaldo Ângelo Sondiua e Ramos António Amine

Niassa (O Destaque) –Janeiro não começa no dia 1. Começa quando as últimas crostas do Natal faltam na mesa, quando o “ntólilo” e o feijão ressuscitam como esperança, quando o arroz volta a ser comprado em copos e quando o sorriso espalhado pelas ruas em Dezembro humilha-se e passa a ser humano.

Os primeiros dias de Janeiro denunciam rostos humildes e uma cidade serena, mas apenas aparentemente. As ruas permanecem frias, o movimento parece normal, os mercados abrem como sempre. Mas há um detalhe que revela a outra face do calendário: as pessoas já não compram como em Dezembro; em Janeiro, perguntam preços. Perguntar não compromete. Comprar, sim.

Janeiro é um mês que se alonga. Não pelo número de dias, mas pelo peso das exigências que carrega. É o mês em que a escola dos filhos se impõe com autoridade: cadernos, pastas, uniformes, sapatos. É o mês que exige que o futuro chegue antes da comida, e quase sempre cobra em dinheiro vivo.

Nas casas modestas, e não dessas modestas que pairam por aí, o cálculo é feito em surdina. O pai revisa mentalmente promessas que não poderá cumprir. A mãe reorganiza a lista das necessidades como quem dobra roupas já gastas, tentando fazê-las parecer novas. O filho observa-os tristemente. Aprende cedo que estudar também é um acto de resistência familiar.

No mercado, a mudança é visível. As bancas permanecem as mesmas, com os mesmos vendedores, mas os olhares dos clientes já não são os de Dezembro. A lisonja do fim de ano cede lugar à prudência consumista. Compra-se o essencial, “para manter a base”. As marcas desejáveis ficam adiadas. O frango inteiro, outrora avermelhado de tanto ser procurado, volta a ser luxo; as asas e o pescoço reassumem protagonismo. O ntólilo e o feijão reaparecem, firmes, como se nunca devessem ter sido esquecidos. Do luxo eterno de Dezembro, vira eterno lixo em Janeiro.

Janeiro é também o mês das dívidas invisíveis. Não aquelas registadas em papel por comerciantes iletrados, mas as que vivem na memória: dinheiro emprestado ao vizinho, promessa feita ao comerciante, favor aceito com juros morais. Por isso, não espanta que alguns alunos passem de classe logo em Janeiro. É um mês em que o bolso pesa mais que a honra, e o ter passa a estuprar a dignidade do ser.

Os bares continuam abertos, embora localizados nas curvas perigosas. Mas a cerveja que ali se vende já não circula com a leveza de Dezembro. Uma só cerveja sofre tanta fração decimal. Quem a compra exige que os outros riam menos alto. Do contrário, perde-se a chance da partilha. A música baixa denuncia o cansaço coletivo. Alguns veem nisso tristeza declarada; longe disso, é contenção aprendida com os gastos de Dezembro. Lichinga atravessa tempos difíceis sem alarde, e não é por acaso que nenhuma portagem foi vandalizada pelos contestatários.

Dizem, em surdina, que Janeiro castiga. Mas talvez não castigue, apenas revela. Revela a inexistência da psicologia dos gastos, a precariedade dos rendimentos, a fragilidade das certezas, a efemeridade da sobrevivência. Revela que muitos de nós não vivemos; apenas existimos. Viver é para os mais raros, e nós, que apenas existimos, existimos sempre a um mês de distância do aperto.

Ainda assim, a cidade não pára. O comércio informal adapta-se nas bermas de quaisquer estradas; as famílias reinventam rotinas à procura de cogumelos nos pinheiros de Lulimile; a escola abre portas como promessa teimosa de que o sacrifício não será em vão. Janeiro pode ser longo, mas não é vazio. E se for, imagine Fevereiro. Janeiro é um mês de escolhas duras e esperanças discretas.

Quando Janeiro finalmente se aproxima do fim, ninguém comemora. Apenas respira-se com mais folga. Como quem viveu à respiração cutânea. Porque em Lichinga, e talvez em muitas cidades semelhantes, Janeiro não termina no dia 31. Termina com 7 de Abril, quando a vida, mesmo sufocada por dívidas invisíveis, prova que conseguiu passar.

E isso, por si só, já é uma vitória. Quem colocar em cheque essa vitória, que aguarde Fevereiro. Apesar de ser o prenúncio das abóboras, elas não passam de aguadas.

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