Sector florestal: casos de “vista grossa” à irregularidades só aumentam na era Falume

As sucessivas denúncias de irregularidades no sector florestal, sobretudo nos procedimentos de licenciamento para exportação de madeira, continuam a suscitar dúvidas quanto à eficácia dos mecanismos de fiscalização administrativa no País. Um dos episódios mais recentes envolve uma empresa constituída em 2024, que conseguiu autorização para exportar madeira mesmo tendo, na sua estrutura societária, um cidadão português que consta como desaparecido em Moçambique há quase dez anos. A situação volta a colocar sob holofotes a actuação da Direcção Nacional de Florestas e Fauna Bravia, liderada por Imede Falume.

O caso refere-se a Américo Sebastião, cidadão português cujo desaparecimento foi reportado em 2016. Na altura, foi indicado que teria sido sequestrado no distrito de Maríngue, na província de Sofala, em circunstâncias que até hoje permanecem sem esclarecimento público. Desde então, não houve informações oficiais sobre o seu paradeiro.

Apesar desse histórico, o nome de Américo Sebastião aparece em 2024 associado a registos empresariais de uma sociedade denominada Inther-Beira, supostamente constituída na cidade da Beira. Segundo os dados disponíveis, o cidadão português figura como detentor de 25 por cento das participações sociais da empresa, embora já fosse considerado desaparecido vários anos antes da criação formal da sociedade.

O que exige a Lei?

Em Moçambique, a criação de uma empresa e o subsequente processo de licenciamento para exportação de madeira implicam o cumprimento de um conjunto de exigências documentais. Entre os documentos normalmente exigidos encontram-se o documento de identificação válido – como passaporte -, comprovativos de residência ou enquadramento legal, os documentos societários assinados pelos sócios, bem como o Número Único de Identificação Tributária (NUIT) e a respectiva certidão de quitação fiscal.
Até ao momento, não foi possível confirmar publicamente a existência desses documentos relativamente ao cidadão desaparecido. Essa ausência de confirmação levanta interrogações sobre a forma como a documentação terá sido apresentada e validada, bem como sobre a eventual existência de falhas no processo de verificação.

Autorização para exportação

Apesar dessas incertezas, a empresa consta dos registos da Direcção Nacional de Florestas e Fauna Bravia como tendo obtido autorização para exportar aproximadamente 2.100 metros cúbicos de madeira.
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O licenciamento deste tipo de actividade envolve procedimentos administrativos que incluem análise documental, verificação da conformidade dos elementos apresentados e decisão final por parte da autoridade competente. No caso da exportação de madeira, essa responsabilidade recai sobre a Direcção Nacional de Florestas e Fauna Bravia.
Perante as circunstâncias, as dúvidas levantadas não dizem respeito apenas ao processo de constituição da empresa, mas também aos procedimentos administrativos que culminaram na aprovação da licença de exportação. Especialistas em direito administrativo recordam que decisões dessa natureza pressupõem a confirmação da identidade dos intervenientes, a validação da documentação apresentada e a verificação da regularidade fiscal das entidades envolvidas.

Persistem, por isso, interrogações sobre que documentos foram considerados no processo, de que forma terão sido avaliados e se os mecanismos de controlo previstos na legislação foram devidamente aplicados.

Possíveis cenários

Com base nas informações conhecidas, diferentes hipóteses são consideradas. Uma delas aponta para a eventual utilização indevida da identidade de um cidadão desaparecido, o que poderia configurar ilícitos como falsificação de documentos ou fraude. Outra possibilidade admite que o desaparecimento não corresponda necessariamente a uma ausência definitiva, podendo tratar-se de uma situação de ocultação voluntária.

Independentemente do cenário, especialistas defendem que o caso exige verificação factual por parte das autoridades competentes.

Processo sobre desaparecimento foi encerrado

Contactada sobre o assunto, a Procuradoria-Geral da República na província de Sofala limitou-se a indicar que o processo relativo ao desaparecimento do cidadão português foi anteriormente encerrado, sem fornecer pormenores adicionais.

Para além do caso específico, a situação levanta questões mais amplas sobre os mecanismos de controlo administrativo no país, nomeadamente no que se refere à verificação da identidade de sócios no registo de empresas, aos critérios aplicados no licenciamento da exportação de madeira e à eficácia dos sistemas de controlo interno na administração pública.

Sublinhe-se que, até ao momento, não existe confirmação oficial de irregularidades. Ainda assim, os elementos disponíveis são considerados suficientes para justificar um eventual aprofundamento da análise por parte das autoridades.

Especialistas defendem que uma averiguação mais detalhada poderá contribuir para esclarecer as circunstâncias que rodearam a constituição da empresa e a atribuição da respectiva licença de exportação.

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