Maputo (O Destaque) — O futebol nacional vive uma das suas maiores e mais bizarras ironias. Depois de cobrirem o país de orgulho ao carimbarem uma qualificação histórica para o Campeonato do Mundo do Qatar 2026, os heróis da selecção nacional de sub-17, os “Mambinhas”, estão retidos em Marrocos. A equipa que fez o país vibrar no Campeonato Africano das Nações (CAN) enfrenta agora um adversário imprevisível e humilhante fora das quatro linhas: a falta absoluta de dinheiro para pagar as passagens de regresso à pátria.
É um cenário desastroso que deixa qualquer moçambicano dividido entre o orgulho da vitória e a vergonha da organização desportiva nacional.
O drama foi exposto sem rodeios pelo próprio presidente da Federação Moçambicana de Futebol (FMF), Feizal Sidat, numa entrevista emocional à TV Sucesso. O dirigente revelou que a odisseia em terras marroquinas já começou sob o signo do improviso, pois a comitiva viajou “à rasca”, com os bilhetes de identidade desportiva e de viagem emitidos inteiramente a crédito.
Agora, para trazer de volta os 32 integrantes da comitiva — entre jovens promessas do futebol, equipa técnica e funcionários da federação —, a FMF precisa urgentemente de três milhões de meticais, um valor que simplesmente não tem nos seus cofres, forçando o presidente a mendigar apoios publicamente.
A amargura de Feizal Sidat é ainda maior face ao silêncio e ao abandono das autoridades estatais. O líder da FMF lamentou profundamente o facto de a selecção não ter recebido qualquer atenção ou apoio financeiro do Governo para esta operação. Até ao momento, o único gesto vindo do topo do Estado foi uma mensagem de felicitação emitida pelo Presidente da República, um carinho institucional que, apesar de moralmente valioso, não serve para pagar as contas da transportadora aérea nem para alimentar os miúdos no hotel.
Este episódio vergonhoso é o espelho perfeito da crise profunda que asfixia o desporto rei em Moçambique. O sufoco dos sub-17 surge numa altura em que o próprio Moçambola, a maior prova de futebol do país, tem sido fustigado por sucessivos impasses e adiamentos devido a graves problemas logísticos e financeiros. Enquanto os “Mambinhas” aguardam por um milagre financeiro em Marrocos para poderem celebrar a qualificação com as suas famílias, o país assiste, de mãos atadas, ao triste espectáculo de ver os seus maiores talentos tratados como pedintes após terem tocado o céu.
