Cabo Delegado (O Destaque) — A tensão entre autoridades municipais e a imprensa voltou a subir de tom em Cabo Delgado, depois de a Rádio Zumbo FM denunciar uma alegada crise salarial na Assembleia Municipal de Mocímboa da Praia e receber, em resposta, palavras insultuosas atribuídas à presidente do Conselho Municipal, Helena Bandeira.
Segundo relatos recolhidos pela emissora, vários funcionários afirmam estar há meses sem receber salários, numa situação que descrevem como desesperante e insustentável. Alguns trabalhadores dizem acumular até 11 meses de ordenados em atraso, cenário que, segundo contam, já provocou dívidas, dificuldades alimentares e medo constante de cobranças.
Uma fonte ouvida pela Rádio Zumbo FM, sob anonimato, afirmou que a crise está a empurrar muitos funcionários para o limite.
“Tenho muitas dívidas e até medo de andar em alguns lugares”, relatou.
Os trabalhadores acusam ainda a liderança municipal de silêncio perante o problema. Segundo as denúncias, reuniões já foram realizadas entre os membros da Assembleia Municipal, mas nenhuma solução concreta foi apresentada.
Além da crise salarial, os funcionários descrevem um ambiente social extremamente frágil em Mocímboa da Praia, marcado pela escassez de alimentos e pela insegurança causada pelos ataques armados na região.
“Tentamos produzir, mas há terroristas nas matas e também no mar”, contou outra fonte.
Com a aproximação do Dia Internacional da Criança, a 1 de Junho, muitos trabalhadores afirmam não ter condições mínimas para apoiar os filhos nas despesas escolares ou sequer preparar a celebração da data.
O caso ganhou contornos ainda mais delicados quando a equipa da Rádio Zumbo FM tentou obter esclarecimentos junto da presidente do Conselho Municipal de Mocímboa da Praia. Segundo a rádio, Helena Bandeira reagiu de forma agressiva durante o contacto telefónico.
“Vai passear longe você. Você sempre me liga. Não faço entrevistas à distância… vai te lixar com tua Rádio”, teria declarado.
A situação volta a colocar em debate as dificuldades enfrentadas por jornalistas no acesso à informação em algumas zonas de Cabo Delgado, onde órgãos de comunicação social denunciam crescente hostilidade por parte de certas autoridades públicas diante de reportagens consideradas incómodas.
