Maputo (O Destaque) – O Fórum das Organizações da Sociedade Civil de Cabo Delgado (FOCADE) manifestou o seu repúdio pela decisão de realizar, na cidade de Maputo, a fase inicial da formação dos jovens seleccionados para a Academia Mozambique LNG, considerando que a medida contraria o princípio do conteúdo local e afasta oportunidades da província que acolhe um dos maiores investimentos do país.
A posição surge na sequência do lançamento da Academia Mozambique LNG, uma iniciativa da TotalEnergies, em parceria com o Ministério da Educação e Cultura e o Instituto Industrial e Comercial da Matola, que prevê a formação de 260 jovens técnicos. O programa contempla uma primeira fase de capacitação na Matola, seguida de formação prática nas instalações do projecto Mozambique LNG, em Afungi, distrito de Palma, província de Cabo Delgado.
Embora reconheça a importância da iniciativa para o desenvolvimento de competências nacionais e para a preparação de mão-de-obra qualificada para a indústria do gás natural liquefeito, o FOCADE considera incompreensível que a formação inicial decorra fora da província onde o projecto está implantado.
Segundo a organização, Cabo Delgado, particularmente a cidade de Pemba, dispõe de instituições de ensino, infra-estruturas e capacidade técnica para acolher esta componente da formação, pelo que a decisão levanta dúvidas sobre o verdadeiro compromisso das entidades envolvidas com a inclusão das comunidades anfitriãs.
Para o FOCADE, o conteúdo local não deve limitar-se à contratação de cidadãos moçambicanos para os projectos, mas deve traduzir-se igualmente em oportunidades concretas de formação, transferência de conhecimento e fortalecimento das instituições de ensino existentes nas regiões directamente afectadas pelos grandes investimentos.
A organização recorda que a própria TotalEnergies tem destacado os investimentos realizados na capacitação de jovens moçambicanos e no reforço de instituições nacionais de formação técnica, incluindo o apoio ao Instituto Industrial e Comercial da Matola. Ainda assim, defende que programas desta dimensão deveriam contribuir igualmente para consolidar a capacidade das instituições de Cabo Delgado.
Na óptica do fórum, a realização da formação em Maputo representa uma oportunidade perdida para impulsionar a economia local, dinamizar os serviços da província e aproximar os jovens da realidade do projecto que irá absorver parte da mão-de-obra qualificada.
O FOCADE apelou à TotalEnergies, ao Governo de Moçambique e às restantes entidades envolvidas na implementação da Academia Mozambique LNG para que revejam as futuras fases do programa, privilegiando Cabo Delgado como espaço estratégico para a formação de quadros ligados à indústria do gás.
A organização sustenta que uma província que suporta os impactos sociais, económicos e de segurança associados aos megaprojectos deve beneficiar, de forma directa, das oportunidades de desenvolvimento que deles resultam.
“O conteúdo local deve ser vivido pelas comunidades anfitriãs e não apenas anunciado como princípio”, defende o FOCADE, reafirmando o compromisso de continuar a promover um desenvolvimento inclusivo, participativo e sustentável em Cabo Delgado, para que os investimentos existentes se traduzam em benefícios concretos para a população local.
