Maputo (O Destaque) – Académico defende que a solução para travar a escalada dos preços passa pelo reforço da produção nacional, pela melhoria das vias de acesso, pelo financiamento de iniciativas juvenis e por uma educação orientada para a criação de emprego.
O aumento de cinco meticais no preço do transporte semi-colectivo de passageiros, conhecido como “chapa”, volta a colocar em debate o peso do custo de vida no bolso dos moçambicanos. Para o académico Julião Cumbane, o problema ultrapassa a subida da tarifa e reflecte fragilidades estruturais da economia nacional, marcada pela dependência das importações e pela limitada capacidade de produção interna.
Falando ao Jornal O Destaque, Cumbane considera que Moçambique se encontra numa situação difícil, na qual tanto os transportadores como os passageiros enfrentam pressões financeiras. Na sua análise, impedir o aumento da tarifa sem resolver os custos de operação poderá comprometer a sustentabilidade do negócio dos transportadores.
“Se não vamos aceitar a subida de cinco meticais do preço do chapa, o chapa não vai ter dinheiro para comprar gasolina, que já está caro”, afirmou, acrescentando que a falta de recursos para a manutenção das viaturas poderá levar à paralisação de alguns veículos e reduzir a capacidade de transporte de passageiros.
Na perspectiva do académico, o dilema evidencia a necessidade de encontrar soluções que não se limitem à discussão das tarifas, mas que enfrentem as causas do encarecimento dos bens e serviços no país.
Produzir mais para depender menos das importações
Para Julião Cumbane, a principal resposta à subida contínua dos preços passa pelo aumento da produção nacional. O académico argumenta que a dependência de produtos importados expõe os consumidores às despesas associadas à aquisição de bens no exterior, enquanto os custos de produção interna continuam elevados.
“Para os preços não subirem, o país tem que produzir”, defendeu, explicando que os países conseguem manter determinados produtos a preços mais acessíveis quando dispõem de capacidade para produzir internamente aquilo de que necessitam.
Como exemplo, apontou o tomate, um produto cultivado em várias regiões de Moçambique, mas que, segundo a sua análise, enfrenta dificuldades de escoamento devido às condições das vias de acesso.
Cumbane mencionou zonas produtivas das províncias de Manica, Tete e Niassa, onde a produção agrícola poderia abastecer os mercados do Sul do país. Contudo, considera que as dificuldades de transporte encarecem os produtos, reduzindo as vantagens da produção nacional.
O académico estendeu a análise à carne de porco e à criação de frangos, defendendo que os custos dos insumos dificultam a competitividade dos produtores moçambicanos perante os produtos importados.
Na sua avaliação, não basta que o país disponha de terra fértil e condições naturais favoráveis. É necessário criar mecanismos que permitam produzir a custos competitivos, melhorar a circulação de mercadorias e garantir que os produtos nacionais cheguem aos consumidores a preços acessíveis.
Dependência energética também preocupa
A questão dos combustíveis também integra a análise de Julião Cumbane. O académico considera que Moçambique deve explorar melhor as alternativas energéticas disponíveis, incluindo as possibilidades de utilização do gás natural no transporte rodoviário.
Cumbane questionou a lentidão que observa no processo de conversão de veículos movidos a gasolina para gás, defendendo que uma maior utilização de recursos energéticos produzidos no país poderia representar uma alternativa para alguns operadores.
“Os combustíveis, nós produzimos gás”, observou, levantando dúvidas sobre a continuidade e a viabilidade das iniciativas de conversão de veículos.
Para o académico, a discussão sobre os custos dos transportes deve, por isso, estar associada a uma estratégia mais ampla de aproveitamento dos recursos nacionais e de redução dos encargos que pesam sobre os operadores económicos.
Chapa expõe fragilidades do transporte público
Na análise de Cumbane, a pressão sobre os transportadores também revela limitações do sistema de transporte público. O académico considera que o Estado não consegue assegurar, por si só, o transporte de todos os cidadãos, o que torna os operadores privados indispensáveis para a mobilidade quotidiana.
“Se o chapa para, já percebeu que o pandemónio existe aqui, ninguém vai para lugar nenhum”, afirmou, ao sublinhar a importância dos transportes semi-colectivos para o funcionamento das cidades.
O académico recordou ainda as promessas de apoio aos transportadores, incluindo possíveis subsídios e condições especiais para a aquisição de combustíveis, mas considerou complexa a concretização dessas medidas.
Na sua perspectiva, a discussão sobre a subida da tarifa não pode ignorar os custos suportados pelos operadores, nem as dificuldades dos passageiros, que precisam do transporte para trabalhar, estudar e realizar outras actividades.
Educação deve formar criadores de emprego
Apesar do cenário que descreve como um “beco sem saída”, Julião Cumbane considera que existe uma resposta estrutural para os problemas da economia moçambicana: a transformação do sistema nacional de educação.
Para o académico, as instituições de ensino devem preparar os estudantes não apenas para procurar emprego, mas também para desenvolver iniciativas económicas capazes de gerar rendimentos e criar postos de trabalho.
“É preciso formar pessoas que não saiam da escola para ir à procura de emprego”, defendeu, argumentando que os jovens devem adquirir competências que lhes permitam transformar ideias em negócios sustentáveis.
Cumbane entende que essa mudança exige igualmente mecanismos de financiamento para apoiar iniciativas empreendedoras, sobretudo as desenvolvidas por jovens recém-formados.
Como exemplo, recordou as dificuldades que enfrentou para fazer funcionar uma incubadora em Malona, apontando a falta de financiamento estatal como um dos obstáculos à continuidade do projecto.
O académico lamentou ainda a ausência de linhas de crédito suficientes para transformar ideias apresentadas por jovens em concursos e programas de empreendedorismo em negócios capazes de gerar emprego.
Na sua avaliação, a falta de apoio financeiro impede que muitas iniciativas avancem da fase de concepção para a actividade produtiva, limitando o seu potencial de contribuir para a economia nacional.
Formalização dos negócios e receitas do Estado
Outro aspecto levantado por Julião Cumbane é a necessidade de formalizar as actividades económicas, sobretudo as desenvolvidas nos mercados informais e nas ruas.
O académico considera que o alargamento da base tributária poderá reforçar a capacidade do Estado de arrecadar receitas para responder às necessidades públicas. Contudo, a formalização deve estar associada à criação de condições que permitam aos pequenos empreendedores desenvolver as suas actividades de forma sustentável.
Cumbane defende que o país precisa de aproveitar melhor os seus recursos naturais, a terra arável e a capacidade de trabalho da população, criando condições para que a produção nacional abasteça o mercado interno.
Na sua análise, a combinação entre uma educação orientada para o empreendedorismo, financiamento acessível, melhores infra-estruturas e maior capacidade produtiva poderá contribuir para reduzir a dependência das importações e aliviar a pressão sobre o custo de vida.
“Parece sem saída, mas tem na educação, como eu disse”, concluiu, apontando a formação de pessoas capazes de produzir, inovar e criar emprego como uma das vias para enfrentar os problemas económicos do país.
Para Julião Cumbane, a subida do preço do chapa é, assim, mais do que uma questão de tarifa: é um reflexo de dificuldades que atravessam a produção, o transporte, o financiamento e a formação profissional. Enquanto esses desafios persistirem, sustenta o académico, os consumidores continuarão expostos à pressão dos preços, num contexto em que os transportadores também procuram manter os seus negócios em funcionamento.
