Rogério Uthui diz que Governo usa manobras dilatórias para apaziguar crise dos combustíveis

Maputo (O Destaque) – O problema dos combustíveis chegou mais longe do que se pensava e trouxe mais um “presente” ao bolso do pacato cidadão, que, dia após dia, reclama do peso da cesta básica.

 Antes mesmo do agravamento das tensões no Médio Oriente, o país já enfrentava dificuldades no abastecimento de combustíveis, numa altura em que o Governo assegurava a existência de reservas, enquanto se apontava a falta de divisas como uma das possíveis causas da escassez.

Posteriormente, o Executivo prometeu subsidiar os transportadores, numa tentativa de evitar o agravamento das tarifas dos transportes públicos. Entretanto, os operadores contestaram a existência da ajuda prometida e, mais tarde, o Governo reconheceu não dispor de recursos financeiros para concretizar o compromisso. Perante este cenário, a Federação Moçambicana das Associações dos Transportadores Rodoviários (FEMATRO) decidiu aumentar em mais cinco meticais o preço das tarifas, agravando ainda mais as despesas de quem já enfrenta dificuldades para chegar ao destino.

Em reacção ao O Destaque, o analista Rogério Uthui considera que a promessa governamental de subsidiar os transportadores constitui uma tentativa de conter uma situação que está fora do controlo do Executivo, recorrendo a uma estratégia que, no seu entender, não oferece garantias de cumprimento.

“É um bocado uma manobra dilatória que é lançada, que devemos pagar apenas para apaziguar uma situação que está fora do controlo do Governo”, afirmou Uthui, explicando que a promessa lhe pareceu irrealista desde o início, tendo em conta experiências anteriores de incumprimento.

O analista recorda que, numa situação semelhante, o Governo deveria subsidiar as gasolineiras, mas acabou por acumular uma dívida superior a 300 milhões de meticais, segundo referiu. Para Uthui, esse antecedente levantava dúvidas sobre a capacidade do Executivo de cumprir um novo compromisso financeiro com os transportadores.

Na sua análise, a actual crise dos combustíveis também não pode ser dissociada das tensões internacionais, que condicionam o abastecimento e pressionam os preços no mercado mundial. Uthui aponta as perturbações nas rotas marítimas do Estreito de Ormuz e de Bab-el-Mandeb como factores que agravam as dificuldades de circulação do petróleo e dos seus derivados.

“Não temos saída e o Governo promete uma coisa que sabe que não pode cumprir e não cumpre”, declarou, defendendo que Moçambique está particularmente vulnerável às oscilações do mercado internacional, devido à sua reduzida capacidade de consumo e armazenamento de combustíveis.

Segundo o analista, o país não dispõe da mesma capacidade de compra e de armazenamento que os grandes consumidores mundiais, o que limita a possibilidade de adquirir grandes quantidades de combustível e de se proteger contra perturbações prolongadas no abastecimento internacional.

Governo adoptou estratégia de comunicação que não corresponde à realidade, diz Uthui

Questionado sobre as declarações iniciais do Governo, que assegurava a existência de reservas de combustíveis numa altura em que se registavam filas nas bombas de abastecimento, Rogério Uthui considera que o Executivo adoptou uma estratégia de comunicação destinada a evitar o alarme público, embora, na sua leitura, essa abordagem não correspondesse à realidade observada.

“É uma estratégia de comunicação que o Governo adoptou, uma certa estratégia de comunicação, porque é um assunto incendiário. O assunto dos combustíveis é um assunto que mexe com toda a gente”, afirmou.

Uthui reconhece que as autoridades podem procurar evitar declarações susceptíveis de provocar pânico, mas entende que a contenção na comunicação não elimina os problemas concretos de abastecimento.

“A verdade é esta, estamos a ver, é que não há combustível”, acrescentou, apontando também para a pressão dos preços internacionais, que, segundo a sua análise, afecta igualmente países produtores de petróleo.

O analista considera ainda que a sucessão de promessas de subsídios não concretizadas contribuiu para o enfraquecimento da confiança entre o Governo e os agentes económicos, sobretudo os transportadores, que dependem directamente dos combustíveis para exercer a sua actividade.

Na sua perspectiva, a decisão de aumentar as tarifas acaba por reflectir as dificuldades enfrentadas pelos operadores perante a subida dos custos e a ausência do apoio financeiro prometido pelo Executivo.

No fim da cadeia, porém, é o cidadão que sente o impacto mais directo: além das despesas com alimentação e outros bens essenciais, passa a gastar mais para se deslocar diariamente, num contexto em que o custo de vida continua a pressionar os rendimentos familiares.

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