Maputo (O Destaque) –Num cenário de extrema contradição, os Presidentes da República Democrática do Congo (RDC), Félix Tshisekedi, e do Ruanda, Paul Kagame, reuniram-se esta quinta-feira na Casa Branca para assinar um “Acordo de Washington” histórico, sob os vaticínios do Presidente norte-americano Donald Trump. O momento diplomático, porém, é manchado por um violento recrudescimento dos combates no leste congolês, onde o grupo rebelde M23, apoiado por Kigali, e o exército congolês (FARDC) travam batalhas ferozes que ameaçam a cidade estratégica de Uvira.
A cerimónia em Washington visa reforçar um acordo de paz preliminar assinado pelos ministros dos Negócios Estrangeiros de ambos os países em Junho passado. No entanto, a implementação desse pacto já tinha estagnado, com tropas ruandesas a permanecerem no território congolês e violações constantes do cessar-fogo.
O chamado “Acordo de Washington” tem como pontos centrais:
Retirada Militar: Ruanda compromete-se a retirar as suas tropas do leste da RDC.
Fim de Apoios: A RDC deve acabar com o seu suposto apoio às FDLR (Forças Democráticas para a Libertação do Ruanda), um grupo insurgente de origem hutu. Paralelamente, Ruanda deve cessar o apoio ao movimento rebelde M23.
Integração Económica: Criação de uma estrutura de integração económica regional entre os dois países, com envolvimento de investidores dos EUA, focada no comércio de minerais críticos como cobalto, cobre e lítio.
Acusações Mútuas e a Guerra das Narrativas
Em vésperas da assinatura, os dois lados trocaram acusações públicas, reflectindo a profunda desconfiança:
Posição da RDC: O ministro da Comunicação congolês, Patrick Muyaya, afirmou que os combates recentes são “prova de que Ruanda não quer a paz”. Para Kinshasa, a paz só é possível com a “retirada das tropas ruandesas” e o fim de “todo o tipo de apoio ao M23”.
Posição do Ruanda: O ministro dos Negócios Estrangeiros ruandês, Olivier Nduhungirehe, descreveu a presença militar do seu país no Congo como “medidas defensivas”. Ele afirmou que a retirada só acontecerá quando as forças congolesas “neutralizarem” as FDLR, grupo que Kigali considera uma ameaça existencial.
Uma Paz de Tinta em Tempo de Fogo
A assinatura do acordo em Washington representa um momento diplomático significativo, impulsionado pela pressão e pelos incentivos económicos dos Estados Unidos. No entanto, o contraste gritante entre a cerimónia na Casa Branca e a realidade sangrenta em Kivu do Sul lança uma sombra de cepticismo sobre as suas hipóteses de sucesso imediato.
A paz duradoura não será decretada num salão em Washington, mas construída no terreno, com a retirada real de tropas, o desarmamento efectivo dos grupos armados e a resolução das queixas de segurança profundas que alimentam este conflito há décadas. Enquanto a cidade estratégica de Uvira estiver sob ameaça e as populações continuarem a fugir dos combates, qualquer acordo permanecerá, nas palavras dos que sofrem no terreno, um “papel empapado de tinta e firmado a 11.000 quilómetros do drama”.
