Maputo (O Destaque) –O recém-eleito Presidente do Malawi, Peter Mutharika, relançou o debate sobre os limites entre política, economia e cultura popular ao nomear Ras Chikomeni Chirwa para o conselho da Autoridade Reguladora da Cannabis. Conhecido pelo seu activismo em torno da cannabis, localmente chamada chamba, Chirwa é uma figura excêntrica, que ascendeu de candidato marginalizado a conselheiro presidencial.
A decisão surge num contexto económico particularmente delicado. O Malawi enfrenta dificuldades financeiras significativas, e o cultivo legal da cannabis para fins medicinais e industriais tem sido apontado como uma possível tábua de salvação, a “suruma” que o país tanto precisa. Estima-se que o sector possa gerar entre 200 a 700 milhões de dólares americanos por ano, um volume que pode ser superior ao das tradicionais exportações de tabaco, que estão em declínio.
Mutharika, de 85 anos, que regressa ao poder sob a sombra do controverso escândalo eleitoral de 2019 episódio que lhe valeu o epíteto de “Presidente Tipp-Ex” vê na cannabis uma aposta estratégica decisiva. No entanto, a nomeação de Chirwa, informalmente conhecido como “Conselheiro da Chamba”, reacendeu tensões profundas entre a inovação económica e o conservadorismo social.
Apoios e Críticas Dividem a Nação
Enquanto alguns sectores consideram a escolha de Chirwa como uma jogada ousada e pragmática para dinamizar rapidamente o sector, outros, especialmente ligados à sociedade civil, às comunidades religiosas e aos círculos mais conservadores, alertam veementemente para os riscos de associar a liderança regulatória a uma figura publicamente ligada à cultura do consumo.
O uso recreativo da cannabis mantém-se proibido no país, mas a liberalização para fins industriais e medicinais levanta sérias preocupações quanto à fiscalização, ao potencial aumento do tráfico, à saúde pública e ao impacto imediato sobre a juventude malawiana. “É imperativo garantir que o ganho económico projetado não comprometa o tecido social e moral do país”, advertiu um influente líder religioso, citado pela imprensa local.
Entre o Risco e a Oportunidade
A audaciosa decisão do governo malawiano coloca o país sob os holofotes de toda a região da SADC. Se o modelo de liberalização e regulação for bem-sucedido, poderá servir de exemplo e referência para outros países africanos que procuram novas fontes de rendimento. Contudo, se a estratégia falhar na gestão dos riscos sociais e de fiscalização, os custos políticos e a erosão da confiança pública podem ser elevados e difíceis de reverter.
