Ajuda humanitária desencadeia suposto “desvio” em Marrupa

Niassa (O Destaque) –A esperada ajuda humanitária destinada às famílias de Marrupa afectadas pelo ciclone jude, em Março passado, transformou-se em caos e forte agitação. Resultando na suspensão da distribuição e na intervenção policial. O cerne da confusão reside numa grave discrepância entre as listas de beneficiários e o número de casas efectivamente destruídas, e a alegada insuficiência dos bens alimentares.

O jornal O Destaque recolheu testemunhos que apontam o dedo à gestão do processo de levantamento e distribuição, com a população a manifestar-se na sede do Conselho Municipal.

Segundo uma fonte anónima próxima ao processo de distribuição, a ajuda que chegou  transportada num camião e parou no circulo do Bairro Cafizeiro,  era destinada a mitigar os danos causados pela chuva e vento que, em Março, teria deixado 61 famílias sem tecto no bairro.

O apoio era de dar a cada casa, comida do tipo como arroz… Eles queriam dar de 25 quilos de arroz para cada pessoa, mas ninguém recebeu. Podiam receber arroz e farinha 25 kilos e feijão, 7 kilos.”

No entanto, a agitação começou quando se descobriu que a lista de nomes para receber a cesta básica era muito reduzida face à quantidade de pessoas presentes e aos danos reais.

Quando chegaram aqueles jovens da empresa, os próprios responsáveis que queriam fazer a distribuição, ao verem a reacção da população”, disseram agora, como é que vamos fazer? A lista tem só 61 casas, mas é toda a população que está a exigir. Vamos provocar agitação aqui? E, na verdade, foi isso mesmo que aconteceu.” Relatou a fonte

O protesto levou a população ao Conselho Municipal, onde, segundo a fonte, o Presidente do Município interveio, referindo que a lista que possuía incluía 1.500 casas registadas no primeiro momento em cada bairro, o que contrariava as 61 casas mencionadas no dia da distribuição.

A confusão culminou com a não distribuição dos bens: “Ninguém recebeu comida, ninguém.” Acrecenta a fonte

O Secretário do Bairro Cafizeiro, Ernesto Aúbe, relatou ter sido vítima da ira popular após a manifestação no município.

Aube refutou veementemente ser o responsável pela lista controversa, contrariando o que, aparentemente, o Presidente do Conselho Municipal teria dito à população em protesto.

 “Daí, a população veio até à minha casa e começou a lançar pedras. Atingiram a minha esposa, que estava aqui comigo. Quando liguei para o comando, não recebi orientação clara sobre o que fazer. Eu estava em casa com um agente a passar uma guia quando saiu, a população fugiu. Foi assim que consegui escapar.”

O secretário negou responsabilidade na elaboração da lista de beneficiários, esclarecendo que o levantamento das casas afectadas foi feito por técnicos do Conselho Municipal, e dos serviços distrital de planeamento e infraestruturas.

 “As listas, eu não sei. Foi feito um levantamento das casas que caíram. Não fui eu, o secretário, quem fez esse levantamento. Foram os técnicos do Conselho Municipal, os da infraestrutura. Agora, por que o presidente do Conselho Municipal disse que fui eu quem passou a lista.  Ele sabe que foi o próprio Conselho municipal. Isso é que me admira.”

O secretário confirmou ainda que a sua participação limitou-se à comunicação da ajuda à população, e não à selecção de beneficiários: “De facto, eu apenas informei sobre essa ajuda. Dei essa informação num funeral, onde havia muitas pessoas.”

Em busca de esclarecimentos, a equipa de reportagem de O Destaque contactou o Presidente do Conselho Municipal, que se recusou a prestar declarações sobre o caso, alegando razões de competência e segurança:

Primeiro, eu nem sei se o senhor está directamente credenciado para o efeito. Então, pelas minhas razões e competências, não posso dar qualquer informação sobre essa acção. Nem vale a pena eu dizer algo acerca do assunto. Se aconteceu ou não, eu não posso dizer nada. É uma questão de segurança.”

A recusa em comentar, somada às contradições entre as declarações do Secretário do Bairro e a postura do Presidente, levanta dúvidas sobre a transparência na gestão e inclusão dos beneficiários de apoios alegadamente provenientes do Governo.

A população de Marrupa, especialmente os jovens, manifestaram o seu descontentamento em relação ao processo de distribuição da ajuda. O Secretário Ernesto Aúbe apontou o nome de uma técnica dos serviços distrital de planeamento e infraestruturas, identificada como Locadia, como estando envolvida no levantamento das residências afectadas. O Destaque continuará a acompanhar o caso e a investigar, com profundidade, a elaboração das listas e o destino da ajuda humanitária.

No entanto, o Director dos serviços distrital de planeamento e infraestruturas de Marrupa, Avelino Valentim, reconheceu que a primeira fase do processo de distribuição de produtos decorreu com normalidade fora do raio municipal. “Na primeira fase de trazerem os produtos, seguia-se a lista. Então, os colegas sempre me davam um relatório:  trabalhamos no posto administrativo de Tumpue, Nungo, Messalo, Bringilane não tivemos problemas. Trabalhávamos no Mercado, por exemplo, não tivemos problemas.”

Entretanto, o responsável mostrou-se surpreendido com os incidentes recentes, alegando não ter acompanhado de perto a situação por estar fora do distrito. “O que fez com que aconteça esse incidente, posso não conseguir explicar, porque, como dizia, não fiz o devido acompanhamento porque não estou no distrito.” Enfatizou o director.

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