Maputo (O Destaque) – A Autoridade Tributária de Moçambique decidiu finalmente quebrar o silêncio sobre o escândalo das três toneladas de droga apreendidas no Aeroporto Internacional de Maputo, mas a resposta não podia ser mais previsível. Em comunicado oficial, a instituição tenta sacudir a pressão que recai sobre os seus agentes e posiciona-se como uma espécie de “santa” imaculada, jurando a pés juntos que não tem absolutamente nada a ver com o submundo do tráfico que opera sob o seu olhar.
No documento, a AT descreve o processo como uma actuação técnica e impecável, garantindo que o seu papel foi o de quem apenas cumpre a lei. A instituição chega a declarar que a sua actuação serviu para confirmar o “cumprimento rigoroso das obrigações legais e operacionais que lhes incumbem”, refutando, por isso, qualquer envolvimento dos seus agentes. Nas palavras do comunicado, a AT afirma categoricamente que “refuta quaisquer insinuações que procurem associar os agentes das Alfândegas em exercício ao caso, muito menos à introdução ou circulação da referida substância ilícita”.
A narrativa pintada é a de uma entidade que vigia e que, por puro milagre da diligência, teria descoberto o esquema. Para evitar que a sombra do tráfico se projecte sobre a instituição, o Director Haydn Joyce David faz questão de separar as águas, sublinhando que, caso se prove o envolvimento de algum funcionário, “tal conduta não terá sido praticada no exercício das suas funções e constitui matéria de responsabilidade pessoal”. Ou seja, para a Autoridade Tributária, qualquer erro é uma excepção individual, nunca uma falha do sistema.
Para quem assiste de fora e vê três toneladas de droga atravessarem uma das fronteiras mais vigiadas do país, este posicionamento soa a um guião bem ensaiado para evitar o escrutínio público. A AT insiste que a detecção ocorreu “precisamente em resultado da actuação diligente dos mecanismos de controlo aduaneiro”, tentando fechar a porta a qualquer interrogação sobre as falhas que permitiram que a mercadoria chegasse ao solo nacional.
Resta saber se a opinião pública e as investigações em curso irão aceitar esta postura de inocência absoluta. Enquanto a AT se declara livre de culpas e blinda a sua imagem institucional, o peso da apreensão continua a ser uma sombra que coloca em causa a credibilidade de todo o sistema. O jogo de empurra-empurra apenas começou, mas a tentativa de se eximir através de um comunicado não parece ser suficiente para apagar as dúvidas de uma sociedade que exige respostas muito mais profundas do que estas justificações que se querem limpas de qualquer suspeita.
