Economia dá sinais de recuperação, mas riscos persistem, interpreta Clésio Fóia

Maputo (O Destaque) – A economia Nacional deverá registar uma recuperação gradual ao longo de 2026, impulsionada pela retoma da actividade produtiva, pelos investimentos estratégicos e pela expansão de sectores como o gás natural, turismo e serviços. Contudo, a escassez de divisas, o crescimento da dívida interna e as persistentes pressões fiscais continuam a representar riscos significativos para o crescimento económico.

Estas são algumas das principais conclusões do mais recente relatório da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FUNDEC), documento que serviu de base para uma entrevista concedida pelo economista Clésio Fóia ao Jornal O Destaque, na qual aprofundou os factores que sustentam o optimismo, bem como os desafios que ainda travam a recuperação económica do País.

Segundo Clésio Fóia, a retoma económica poderá ser favorecida pelo abrandamento de alguns factores externos. “A recuperação pode ser sustentada pelo acalmar dos choques do lado da oferta, facilitando uma maior dinâmica do comércio e dos serviços, incluindo o transporte marítimo global”, afirmou.

O economista acrescentou que outro elemento determinante é a expectativa em torno da decisão final de investimento da ExxonMobil. “É o período em que a ExxonMobil diz que vai tomar a decisão final de investimento. Isto coloca expectativas para o ambiente empresarial, tanto para empresários nacionais como internacionais, que acompanham estas dinâmicas e tomam decisões de investimento”, explicou.

Clésio Fóia destacou igualmente que o início do pagamento das dívidas do Estado aos fornecedores poderá aliviar a situação financeira das empresas. “O Governo começa a pagar as dívidas aos fornecedores e coloca algum nível de pujança na tesouraria das empresas, permitindo que possam voltar a produzir”, referiu.

Sobre a dívida pública, tema igualmente destacado no relatório da FUNDEC, o economista advertiu para o crescimento da dívida interna. “O Estado terá de reescalonar a dívida, ou seja, contrair dívida para pagar outra dívida. Isto preocupa porque retira recursos que poderiam ser destinados ao investimento público em infra-estruturas, saúde, educação e protecção social”, afirmou.

No que diz respeito à escassez de divisas, apontada pela FUNDEC como um dos principais constrangimentos da economia nacional, Clésio Fóia considera que a situação continua a afectar severamente o sector empresarial. “Sem sombra de dúvidas, a escassez de divisas continua ainda a sufocar as empresas nacionais. Temos facturas pendentes nos bancos comerciais e isso provoca atrasos na produção de bens e serviços, além de afectar o abastecimento de combustíveis”, declarou.

Como alternativa, defendeu mudanças estruturais na economia. “Temos de transformar internamente os nossos recursos naturais para exportar produtos acabados e não matéria-prima. Só assim poderemos gerar mais divisas e participar com maior competitividade no comércio internacional”, sustentou.

O relatório da FUNDEC refere igualmente que os bancos continuam a privilegiar o financiamento ao consumo e à aquisição de títulos do Estado, em detrimento do sector produtivo. Sobre este ponto, Clésio Fóia concorda com a análise. “Os bancos continuam a privilegiar o crédito ao consumo e ao Governo, enquanto exigem garantias muito elevadas às empresas, o que coloca uma disrupção na cadeia produtiva e limita a capacidade de investimento”, explicou.

Apesar dos desafios, tanto o relatório da FUNDEC como a análise de Clésio Fóia apontam que o país dispõe de oportunidades importantes para acelerar o crescimento económico, desde que sejam implementadas reformas estruturais, reforçada a gestão das finanças públicas e concretizados os grandes investimentos previstos para os próximos meses.

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