Maputo (O Destaque) – O resultado da primeira volta das eleições presidenciais brasileiras de 2026 colocou Flávio Bolsonaro (PL) na dianteira da corrida eleitoral, com 47,1% dos votos, contra 45,1% alcançados por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo dados referentes a 99,8% das urnas apuradas.
Num universo de mais de 120 milhões de votos, a abstenção atingiu 21%, correspondente a cerca de 33 milhões de brasileiros que não compareceram às urnas, num dos níveis mais elevados das últimas décadas.
Foi neste cenário de forte disputa política que Leonardo Sobreira, jornalista brasileiro e secretário de Redacção do Brasil 247, disse ao O Destaque que o resultado ainda não permite antecipar o desfecho da eleição, sobretudo devido ao peso que o eleitorado abstencionista poderá ter na segunda volta.
Para Leonardo, a diferença entre os dois candidatos é suficientemente curta para manter a disputa em aberto, sendo necessário compreender quem terá maior capacidade de conquistar os eleitores que ficaram fora da votação.
“Esse eleitorado vai ser determinante se essas pessoas forem votar de facto. E essa é uma questão. A gente não sabe se essas pessoas estão dispostas a votar”, afirmou.
O jornalista considera que parte dos 33 milhões de eleitores que não votaram pode estar desmotivada com o ambiente político brasileiro, marcado, segundo a sua análise, por forte polarização e disputas institucionais.
Na sua leitura, este grupo poderá incluir eleitores que não se identificam com Lula e o Partido dos Trabalhadores, mas que também não estão necessariamente dispostos a votar em Flávio Bolsonaro.
“Provavelmente é aquela pessoa que é anti-Lula, anti-PT, mas que também não vota no Flávio Bolsonaro. Agora, essa pessoa pode ser atraída, sim, [por] Lula”, defendeu.
Leonardo vê risco de aumento da tensão política
Ao analisar a vantagem obtida por Flávio Bolsonaro na primeira volta, Leonardo Sobreira afirmou que a principal preocupação da campanha de Lula deverá ser convencer os eleitores sobre os efeitos que uma eventual mudança de Governo poderá produzir no país.
“O presidente Lula tem a capacidade de baixar a temperatura do país. O Flávio Bolsonaro só vai subir a temperatura do país”, declarou.
Segundo o jornalista, a campanha de Lula deverá concentrar-se em temas como estabilidade institucional, segurança fiscal, políticas sociais e o posicionamento do Brasil no cenário internacional.
Leonardo considera ainda que a campanha petista terá de procurar formas de alcançar sectores do eleitorado que, embora situados à direita do espectro político, não necessariamente se identificam com o projecto de Flávio Bolsonaro.
Nordeste continua a ser território de Lula
Apesar da vantagem nacional de Flávio Bolsonaro, Lula da Silva manteve maior aceitação no Nordeste, região historicamente associada à sua base eleitoral.
Para Leonardo Sobreira, essa preferência está relacionada com a identificação de parte da população nordestina com a trajectória política de Lula e com as políticas de desenvolvimento social e económico implementadas durante os seus governos.
“A região Nordeste permanece como um polo central do presidente Lula”, afirmou.
O jornalista explicou que a relação entre Lula e o eleitorado nordestino não se limita à sua origem, mas também está associada à percepção de que o actual Presidente desempenhou um papel importante no desenvolvimento da região.
“É a região que historicamente sofreu com a questão do desenvolvimento, escassez e, enfim, o presidente Lula foi, de facto, um líder revolucionário para essa região. Muitas pessoas dessa região o veem dessa forma”, explicou.
Ainda assim, Leonardo alertou que a vantagem de Lula no Nordeste não deve ser encarada como suficiente para garantir a vitória, uma vez que as forças de direita continuam a ampliar a sua presença eleitoral noutras regiões do país.
O desafio de Lula para a segunda volta
Questionado pelo O Destaque sobre como Lula poderá recuperar os eleitores que não participaram da primeira volta, Leo defendeu uma estratégia de maior abertura política e aproximação a sectores que não se identificam directamente com o PT.
Na sua perspectiva, a campanha deverá ampliar a sua capacidade de diálogo e explorar figuras políticas com maior trânsito junto do eleitorado de centro e de direita.
Entre os nomes mencionados está Geraldo Alckmin, actual vice-presidente, que possui uma longa trajectória política ligada à oposição ao PT antes de integrar a chapa de Lula em 2022.
Para Leo, uma maior participação de Alckmin na campanha poderá ajudar a aproximar eleitores que, apesar de se situarem politicamente à direita, podem não estar dispostos a apoiar Flávio Bolsonaro.
A segunda volta, assim, deverá ser marcada pela disputa por um eleitorado que não se mobilizou na primeira votação e que poderá tornar-se decisivo para determinar quem ocupará a Presidência do Brasil.
