Maputo (O Destaque) – Quatro décadas após a morte do primeiro Presidente de Moçambique, a oposição recorda os campos de reeducação, os fuzilamentos públicos e acusa a FRELIMO de dar continuidade a práticas herdadas do seu antecessor.
Moçambique assinala, a 19 de Outubro de 2026, os 40 anos da morte de Samora Moisés Machel, primeiro Presidente da República, que perdeu a vida num acidente aéreo ocorrido em Mbuzini, na África do Sul, em 1986. Quatro décadas depois da sua partida, a figura histórica que conduziu o país nos primeiros anos da independência continua a dividir opiniões entre os que exaltam o seu papel na libertação nacional e os que contestam as suas decisões políticas durante a governação.
Por ocasião da efeméride, a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), através do seu porta-voz, Marcial Macome, considera que a avaliação do legado de Samora Machel não deve limitar-se aos feitos da luta pela independência, defendendo que também sejam recordadas as práticas repressivas atribuídas ao seu Governo.
“Samora Machel foi uma das figuras que lutou contra a democracia”, afirmou Macome, apontando os campos de reeducação e os fuzilamentos em praças públicas como alguns dos episódios que, na sua perspectiva, não podem ser apagados da memória colectiva.
O porta-voz da RENAMO criticou igualmente o encerramento das lojas do povo e as políticas económicas e sociais adoptadas durante o período de orientação socialista, considerando que determinadas decisões contribuíram para a construção de um Estado fechado à diversidade de opiniões e à participação política plural.
“Não podemos esquecer este legado de Samora Machel, os campos de reeducação, os fuzilamentos nas praças públicas”, declarou, sustentando que a história do primeiro Presidente deve ser analisada de forma abrangente, sem ignorar os aspectos que considera negativos.
Macome reconheceu, contudo, que o percurso histórico de Samora Machel não deve ser reduzido apenas às críticas, defendendo uma análise que permita compreender as diferentes dimensões da sua liderança e as consequências das decisões tomadas naquele período.
Na leitura do dirigente da RENAMO, a evolução política de Moçambique, marcada pela introdução do multipartidarismo e pela realização de eleições, representa uma mudança em relação ao modelo de governação que caracterizou os primeiros anos da independência. Para o porta-voz, a abertura democrática permitiu ampliar o espaço para a diversidade de opiniões, a tolerância e o respeito pelas diferenças políticas.
Ainda assim, Macome considera que persistem práticas que associa ao passado, acusando a FRELIMO de dar continuidade a uma cultura política intolerante. Como exemplos, mencionou alegadas perseguições a opositores políticos, mortes de adversários, assassinatos de jornalistas e perseguições a juízes.
“Esse espírito ditador, esse espírito intolerante, é o mesmo espírito que caracteriza até hoje o Partido FRELIMO”, afirmou, defendendo que o legado de Samora Machel continua a influenciar a forma como o país é governado.
As declarações colocam novamente em debate a herança política do primeiro Presidente moçambicano, cuja memória permanece associada tanto à luta pela independência e à construção do Estado nacional como às controvérsias em torno das liberdades individuais e das práticas repressivas durante o seu Governo.
Quarenta anos após a sua morte, Samora Machel continua, assim, a ocupar um lugar central na memória política do país, num debate em que a valorização do seu contributo histórico convive com exigências de reflexão crítica sobre as decisões tomadas durante a sua liderança.
