Renamo diz que exoneração da ministra da educação já devia ter acontecido e defende liderança comprometida com o sector

Maputo (O Destaque) – A Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) considera que a exoneração da antiga ministra da Educação e Cultura já deveria ter acontecido há mais tempo, defendendo que a mudança na liderança do sector deve abrir caminho para a resolução dos problemas que afectam professores, alunos e o funcionamento do sistema educativo.

Em entrevista ao Destaque, o porta-voz da RENAMO, Marcial Macome, afirmou que o partido não pretende associar directamente a exoneração às declarações polémicas proferidas pela antiga governante sobre os professores, argumentando que a decisão deve ser analisada à luz do desempenho da gestão ministerial e das dificuldades acumuladas no sector.

“Bom, nós, como RENAMO, não gostávamos de associar directamente a exoneração àquele discurso. Achamos que aquilo é um preliminar de um conjunto de acções que, nos anos anteriores, têm sido tomadas. Aquela medida já devia ter sido tomada há muito tempo”, declarou Macome.

O porta-voz condenou as declarações que, na sua interpretação, desrespeitaram os profissionais da educação, considerando injusto associar os professores a problemas de gestão, tendo em conta o papel que desempenham na formação da sociedade.

“Aliado ao discurso, aquilo onde se desrespeita toda a classe de professores, onde se desrespeita aqueles que todos os dias dão duro para formar uma sociedade, para formar pontos cardeais da sociedade. É impossível pensar que aqueles que se dedicam diariamente a formar pontos cardeais sejam vistos como maus gestores. É uma falta de respeito com a classe”, afirmou.

Macome acrescentou que a polémica não deve desviar a atenção da avaliação do trabalho desenvolvido à frente do Ministério da Educação e Cultura. Na sua perspectiva, o afastamento da governante não deve ser explicado apenas pelas declarações públicas, uma vez que, segundo disse, existiam problemas de desempenho anteriores.

“Condenamos totalmente aquele discurso, mas não queríamos que isso fosse associado à exoneração, porque, de facto, estes discursos tendem a camuflar a verdadeira essência da sua incompetência ao nível do Ministério. Durante o seu mandato, nada de relevante pode ser apontado como tendo contribuído para o bem dos professores ou para o bem da própria educação”, declarou.

O porta-voz da RENAMO considerou ainda que a antiga ministra deixa um legado pouco expressivo para a classe docente, reiterando que, na avaliação do partido, a sua saída já era necessária.

“É uma espécie de alguém que sai e não deixa saudades, e não acrescentou nem agregou nada para a classe. Então, é uma exoneração que nós já sabíamos que vinha há muito tempo e que já havia tempo de se fazer isso”, afirmou.

Novo ministro deve ter condições para trabalhar

Questionado sobre se considera a exoneração positiva para o Ministério da Educação e Cultura, Macome afirmou que a RENAMO espera uma nova abordagem na gestão do sector, centrada na resolução dos problemas e na construção de políticas públicas capazes de produzir resultados.

“Nós esperamos um Ministério da Educação mais virado para a resolução de problemas e para a construção de políticas públicas sólidas para o sector da educação. Acreditamos que é possível, a partir daqui, pensar-se a educação como ela deve ser pensada em termos de política pública. É possível pensar-se isso”, disse.

Na mesma ocasião, defendeu que o novo titular da pasta deve ter espaço para desenvolver o seu trabalho sem interferências políticas, de modo a concentrar-se nas prioridades do sector.

“Agora, é preciso também que se dê espaço ao novo ministro para que faça o seu trabalho e sem interferências políticas”, sublinhou.

RENAMO aponta problemas estruturais na educação

Perante a questão de saber se os problemas da educação resultam sobretudo da liderança ministerial ou de fragilidades estruturais do próprio sistema, Macome defendeu que é necessário enfrentar os desafios de forma abrangente e com capacidade de decisão.

“Há que ter coragem de resumir todos os factos que já nos disseram da educação para resolver definitivamente o problema da educação. A educação não pode ser vista como um lugar que é um cemitério de processos de incapacidade de resposta às demandas sociais. A educação é a base do movimento de uma sociedade”, afirmou.

Para o porta-voz, a liderança do Ministério tem um papel determinante na identificação e resolução das dificuldades existentes. Na sua avaliação, os problemas persistem, em parte, devido à falta de responsáveis capazes de lhes dar a devida atenção e encontrar respostas eficazes.

“Esses problemas são, sim, resultados da falta de uma liderança capaz de resolvê-los, com a devida atenção, de forma diferente, e alguns, por serem sérios, acabam por ser tratados como se não existissem. Precisa-se, no Ministério da Educação, de líderes corajosos, líderes comprometidos, líderes cujo único compromisso seja com o povo e com a educação, e não com indivíduos”, declarou.

Macome salientou que os constrangimentos enfrentados pelo sector são diversos e não podem ser ignorados, apontando a falta de condições materiais nas escolas e os problemas relacionados com a carreira e a preparação dos professores.

“Os problemas da educação são vários. Isso temos que sublinhar. De facto, são muitos, são problemas, muitos dos quais nós conhecemos. Estamos a falar desde a falta de carteiras, a falta do livro escolar, a falta de promoção de professores, a precarização da formação de professores, a precarização do próprio material prático”, afirmou.

Na sua perspectiva, a resolução destes desafios exige uma liderança que reconheça a educação como uma prioridade nacional e compreenda a sua importância para o desenvolvimento do país.

“Esses problemas todos precisam de alguém que tenha coragem e entenda que é preciso olhar para a educação como a base para resolver os problemas sociais que nós temos. Precisamos de uma educação sólida, uma educação que permita formar gente para responder às necessidades do país”, defendeu.

Macome concluiu que a transformação do sistema educativo depende também da capacidade dos responsáveis de compreender o papel da educação na formação dos cidadãos e na construção do país.

“A função de uma educação é que as lideranças tenham esta visão do papel da educação no desenvolvimento e na construção do país”, concluiu o porta-voz da RENAMO, em entrevista ao Destaque.

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