Por: Ramos António Amine, Professor de Filosofia
Há uma pergunta que se faz sempre que alguém morre. Tão simples, breve, quase automática: “A urna veio?”
À primeira vista, trata-se de uma questão de gestão de tempo: as pessoas precisam livrar-se logo da urna, pois ela pesa na consciência dos que ficam. No fundo, porém, é uma das perguntas mais metafísicas que a linguagem humana já forjou.
Quando alguém morre, algo inusitado sucede: o seu nome passa a ser insuficiente. Aquele que, há horas, era chamado pelo nome próprio, repleto de história, afectos, memórias e conflitos de legitimação, hoje é reduzido a um objecto. Ninguém ousa perguntar por ele ou por ela; pergunta-se pela urna. Pior ainda, pergunta-se se ela veio. O nome cede lugar à coisa.
A morte não sacrifica apenas a vida biológica; ela opera uma transmutação simbólica. O sujeito transforma-se em conteúdo da urna. A pessoa converte-se em recipiente prestes à decomposição. Aquilo que foi presença temida, respeitada, amada ou odiada torna-se restos mortais. A linguagem segue com fidelidade fria esse processo: deixa de nomear identidades de excitação e passa a rotular objectos de repulsa. São poucos os que se aproximam da urna, ainda mais quando ela contém restos mortais em avançado estado de decomposição. Até os perfumes teimam em desempenhar o seu papel com zelo.
Esse desvio de eixo gravitacional não é um acidente aristotélico. É a revelação do quanto nos é difícil lidar com a substância finita. Dizer “a urna veio” é mais consolador e aconchegante do que dizer o nome daquele que já se tornou autenticamente mudo. A urna veio, eis um termo técnico que nos protege do abismo existencial. É uma forma de anestesia simbólica. A sociedade precisa refinar a absurdidade da morte para continuar a funcionar; do contrário, ela se tornaria tão insuportável quanto a pedra de Sísifo.
Mas há algo de profundamente angustiante nisso. Durante toda a vida, lutamos para afirmar quem somos, para deixar marcas, para sermos reconhecidos como seres singulares. No fim, essa singularidade dissolve-se numa designação coletiva. A urna é sempre igual, apesar de conter restos mortais de seres irrepetíveis. A morte, nesse sentido, nivela desigualdades que nem a Declaração Universal dos Direitos Humanos consegue suprimir: ela é radicalmente igualadora.
A pergunta “A urna veio?” diz mais do que se imagina. Ela diz que o corpo (matéria) derrotou o nome (ideia); que a ciência da vida (biologia) venceu a ciência das vivências (biografia); que a história pessoal foi brutalmente encerrada e substituída por um banho colectivo. O ser humano deixa de ser projecto, como diria Heidegger, e passa a ser coisa disponível, transportável, administrável.
No entanto, algo permanece. Mesmo quando dizemos “urna”, sabemos que ali está alguém. Só que é um alguém que já não responde. Há quem responda por ele lá fora. A linguagem tenta coisificá-lo, mas a memória insiste em humanizá-lo. Em surdina, o nome continua a ecoar na mente dos seus. É assim que nasce o luto: no intervalo entre o objecto dito (urna) e a pessoa lembrada (nome).
Por isso a pergunta incomoda tanto, talvez. Porque ela expõe, sem disfarces, o absurdo da condição humana: não é apenas o corpo que apodrece; é também a forma como o mundo nos nomeia quando já não temos possibilidade de responder. E quando o nome se revela insuficiente, resta a urna.
A morte, afinal, não é apenas o fim da vida. Nem é o início da briga pelo espólio.
É o começo do momento em que o humano deixa de ser chamado e passa a ser levado.
