Maputo (O Destaque e Agências Internacionais) — A interrupção das rotas comerciais no Golfo Pérsico está a lançar um novo alerta sobre a vulnerabilidade dos sistemas de saúde africanos. O encerramento do Estreito de Ormuz, provocado pela escalada do conflito envolvendo o Irão, ameaça comprometer o abastecimento de medicamentos essenciais em vários países do continente, fortemente dependentes das importações provenientes da Índia.
Conhecida internacionalmente como a “farmácia do Sul Global”, a Índia é responsável por cerca de 40% dos medicamentos importados por África, desempenhando um papel central no fornecimento de antibióticos, antirretrovirais para o tratamento do HIV, medicamentos contra a malária e tuberculose, insulina, fármacos para hipertensão e outros produtos indispensáveis para milhões de pacientes.
Durante anos, este sistema funcionou através de uma complexa rede logística que liga centros farmacêuticos indianos, como Hyderabad, Mumbai e Ahmedabad, a plataformas de distribuição localizadas nos Emirados Árabes Unidos, Catar e outros países do Golfo. A partir desses centros, os medicamentos seguem para diferentes mercados africanos por via marítima e aérea.
Contudo, o agravamento da instabilidade na região alterou significativamente este cenário. O bloqueio de uma das mais importantes rotas marítimas do mundo elevou os custos de transporte, aumentou os prémios de seguro para cargas comerciais e obrigou várias companhias aéreas a reverem as suas operações, reduzindo a capacidade de transporte de mercadorias sensíveis, incluindo medicamentos que exigem conservação em cadeia de frio.
Especialistas alertam que muitos países africanos não dispõem de reservas estratégicas significativas de medicamentos. Ao contrário de economias mais desenvolvidas, onde é comum manter vários meses de stock, grande parte dos sistemas de saúde africanos opera com modelos de aquisição contínua, tornando-os particularmente vulneráveis a atrasos nas cadeias de abastecimento.
A situação é agravada pela forte dependência de matérias-primas importadas. Mesmo em países onde existe alguma produção farmacêutica local, muitos ingredientes activos, materiais de embalagem e componentes industriais continuam a ser adquiridos na Índia e na China.
Segundo especialistas do sector, os aumentos dos custos de produção e transporte já estão a afectar toda a cadeia farmacêutica. Alguns insumos registaram subidas significativas de preço, pressionando fabricantes e distribuidores e criando riscos adicionais para o fornecimento regular de medicamentos essenciais.
Os produtos mais vulneráveis incluem antibióticos, medicamentos para diabetes e hipertensão, analgésicos e vacinas, itens que constituem a base dos cuidados de saúde primários em grande parte do continente.
A crise reacendeu igualmente o debate sobre a necessidade de fortalecer a indústria farmacêutica africana. Apesar dos avanços registados nos últimos anos, com empresas internacionais a instalarem unidades de produção em alguns países africanos, especialistas defendem que a segurança farmacêutica exige muito mais do que fábricas locais.
Para além da produção, são apontados como essenciais o fortalecimento dos sistemas de aquisição pública, a melhoria da gestão logística, a criação de reservas estratégicas e uma maior transparência nas cadeias de abastecimento.
Analistas consideram que o actual cenário representa não apenas um desafio comercial, mas também um teste à capacidade dos países africanos de garantirem autonomia e resiliência no acesso a medicamentos essenciais.
Enquanto o conflito no Golfo continua a gerar incertezas, governos, organizações internacionais e o sector farmacêutico acompanham com preocupação os possíveis impactos sobre a saúde pública, num continente que já enfrenta elevados índices de doenças infecciosas e uma crescente procura por cuidados médicos.
A crise evidencia, uma vez mais, a importância de investir em sistemas de saúde mais robustos e em cadeias de abastecimento menos dependentes de factores externos, para garantir que milhões de africanos continuem a ter acesso aos medicamentos de que necessitam.
Fonte: DW
