Jaime Saia considera “guerra de narrativas” às declarações do Irão

Maputo (O Destaque) – A ameaça do Irão de poder estender o actual conflito ao Oceano Índico está a elevar a atenção sobre as possíveis dimensões geopolíticas da crise envolvendo Teerão e os seus adversários. Para o analista de Política Internacional e pesquisador Jaime Saia, as recentes declarações iranianas procuram transmitir uma mensagem clara sobre a capacidade do país de responder militarmente aos seus adversários.

Numa entrevista concedida ao O Destaque, Jaime Saia explicou que, apesar das limitações militares e económicas do Irão quando comparado com os Estados Unidos, Teerão pretende demonstrar que ainda reúne condições para contra-atacar e responder aos seus adversários.

Segundo o analista, os pronunciamentos iranianos surgem também num contexto marcado pela realização da Assembleia Geral das Nações Unidas, onde são renovados os apelos à paz e à redução das tensões internacionais.

Para Jaime Saia, ao adoptar este discurso, o Irão procura transmitir uma mensagem não apenas aos Estados Unidos, mas também à comunidade internacional e aos países que acompanham a sua posição no actual conflito.

“Os pronunciamentos que estão a dar neste momento são sinal de que querem deixar uma mensagem clara”, explicou o analista, defendendo que Teerão pretende contrariar a percepção de que se encontra numa posição de desvantagem perante os seus adversários.

Ao abordar especificamente a possibilidade de o conflito alcançar o Oceano Índico, Jaime Saia considerou que a declaração deve ser analisada também à luz da dimensão marítima do confronto. Na sua leitura, o discurso iraniano procura demonstrar que o país mantém capacidade para actuar e responder no domínio marítimo.

O analista relacionou ainda estas declarações com anteriores afirmações do Presidente norte-americano, Donald Trump, sobre a capacidade naval iraniana. Para Saia, a posição assumida actualmente por Teerão procura contrariar a ideia de que as capacidades marítimas iranianas teriam sido completamente neutralizadas.

“O Irão está a mostrar que não, nós temos capacidade”, afirmou Jaime Saia.

O pesquisador chamou igualmente atenção para a chamada guerra de narrativas que acompanha os conflitos militares. Segundo explicou, os meios de comunicação associados a diferentes lados do confronto podem apresentar interpretações distintas dos acontecimentos, contribuindo para uma disputa pela construção da percepção pública sobre a guerra.

Jaime Saia observou que, enquanto parte da comunicação social ocidental tende a apresentar a perspectiva dos países ocidentais, existe também uma comunicação social alinhada com a posição iraniana, que procura contrabalançar essa narrativa e alcançar diferentes públicos.

Sobre o eventual envolvimento dos países banhados pelo Oceano Índico, o analista considerou que as declarações de Teerão também podem ser entendidas como uma forma de chamar a atenção desses Estados para a necessidade de se posicionarem diplomaticamente perante a escalada.

Na sua análise, mesmo que esses países não tenham capacidade directa para determinar o curso do conflito, podem exercer influência através de posições diplomáticas e de apelos dirigidos aos Estados Unidos e aos demais actores do sistema internacional.

A eventual extensão do conflito ao Oceano Índico, contudo, permanece como uma possibilidade colocada nas declarações iranianas, e não como um acontecimento já concretizado.

As declarações que levantaram a possibilidade de extensão do conflito ao Oceano Índico foram divulgadas pela agência de notícias iraniana Fars, num vídeo atribuído a Yahya Rahim Safavi, conselheiro do Líder Supremo do Irão.

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