Maputo (O Destaque) — Os vídeos que circulam nas redes sociais, mostrando milhares de jovens perfilados para submeter candidaturas a vagas de emprego num dos supermercados do bairro de Magoanine, na cidade de Maputo, geraram uma onda de indignação e reacenderam o debate sobre o desemprego juvenil em Moçambique. As imagens mostram uma multidão de candidatos a disputar mais de 30 vagas, cenário que muitos classificam como um retrato do desespero da juventude moçambicana. O caso provocou fortes reacções da opinião pública, que questiona a eficácia das políticas de emprego e as oportunidades oferecidas aos jovens. Para analisar esta realidade, o Jornal O Destaque entrevistou, em exclusivo, Wilker Dias, Director da Plataforma DECIDE.
Segundo Wilker Dias, as imagens reflectem a necessidade urgente de o país encontrar soluções estruturais para o problema do desemprego. Para o activista, uma das principais razões que levou milhares de jovens a manifestarem-se nos últimos tempos continua sem resposta.
“Quando se fala do Diálogo Nacional Inclusivo, uma das grandes problemáticas que levou as pessoas às ruas foi precisamente a questão do desemprego. No entanto, este assunto sequer está a ser debatido. Isso é um factor perigoso”, afirmou.
Na sua análise, o desemprego constitui uma ameaça à estabilidade social e demonstra que o país ainda não encontrou uma estratégia capaz de responder às necessidades da juventude.
Dias considera que o Governo não tem colocado os jovens no centro das suas prioridades, apesar de existirem sectores com potencial para gerar milhares de empregos.
“Não estamos a conseguir tomar a juventude como prioridade. Temos indústrias que podiam gerar emprego, temos a agricultura, mas falta uma estratégia para garantir estabilidade e oportunidades aos jovens”, defendeu.
O Director da Plataforma DECIDE alertou ainda para as consequências que poderão surgir caso o desemprego continue a agravar-se. Na sua perspectiva, “a falta de oportunidades poderá aumentar os níveis de criminalidade, prostituição, conflitos sociais e problemas de saúde mental”
Questionado sobre as responsabilidades dos diferentes intervenientes, o activista foi directo ao afirmar que o Governo deve reconhecer as suas falhas.
“O Governo tem de assumir que está a falhar. A sociedade civil tem feito a sua parte, criando espaços de pressão e oportunidades para os jovens adquirirem experiência. Já o sector privado enfrenta dificuldades porque as políticas não favorecem a abertura de novas empresas e o crescimento económico”, explicou.
Sobre o futuro do país, advertiu que a persistência desta realidade poderá representar um risco para a estabilidade nacional.
“Qualquer erro cometido pelo Governo poderá servir de gatilho para novas manifestações e outras formas de contestação social”, alertou.
“A juventude não pode servir apenas para colar cartazes em tempo de campanha. A juventude serve para trazer ideias, inovação, novas tecnologias, industrialização e desenvolvimento”.
Acrescentou.
“O Governo deve ouvir as vozes que realmente têm algo a contribuir para o desenvolvimento do país. O lambe-botismo, o nepotismo e outras práticas semelhantes não levam nenhuma nação ao progresso. É preciso dar espaço às vozes críticas, porque são elas que muitas vezes apresentam soluções para os problemas do Estado. Se isso não acontecer, dificilmente conseguiremos sair deste marasmo”. Concluiu
