Matar o padre com uma AK-47 revela a ausência do Estado, diz Albino Mangunene

Maputo (O Destaque) – Depois de terem calado Dom Osório Citora Afonso, bispo da Igreja Católica em Quelimane, as vozes não se calaram para repudiar o assassinato bárbaro de uma figura religiosa amplamente respeitada. Entre elas está a do pastor e analista político Albino Mangunene, que, em entrevista ao Destaque, classificou o crime como um sinal preocupante da fragilidade da segurança no país e da incapacidade do Estado de proteger os seus cidadãos.

Primeiro, dizer que o meu sentimento, na qualidade de cidadão e de pastor, com relação ao assassinato do padre Osório, é de indignação e, ao mesmo tempo, de insegurança. Indignação porque qualquer acto de tirar a vida de uma pessoa é desumano, deve ser condenado e olhado como bárbaro. Pior ainda nos moldes em que a vida foi tirada e os meios que foram usados para tirar a vida desta individualidade dentro da nossa sociedade”, afirmou.

Para Mangunene, a morte de um líder religioso ultrapassa a dimensão de um crime comum. Segundo explicou, padres, bispos e outros líderes religiosos são vistos pela sociedade como representantes de Deus e carregam um elevado simbolismo espiritual.

O facto de que quando nós olhamos para um pastor, um bispo, um reverendo ou um padre, são figuras profundamente ligadas ao fenómeno religioso. São olhadas, de certa forma, como porta-vozes de Deus. Então, se um indivíduo ou um grupo de indivíduos tem coragem de tirar a vida de uma individualidade simbólica como um padre, o que não fará com um cidadão pacato?”, questionou.

O pastor considera que o assassinato de Dom Osório revela uma preocupante vulnerabilidade dos cidadãos perante a criminalidade.

Isso significa que estamos numa situação vulnerável, uma situação de ausência do Estado, em que o Estado não consegue garantir segurança para os seus próprios cidadãos. A partir do momento em que casos como esses acontecem, envolvendo uma individualidade como a do padre Osório, revela-se uma total ausência do Estado”, declarou.

Mangunene também levantou dúvidas sobre as circunstâncias em que o crime foi executado. Segundo ele, as informações que circulam sobre o uso de uma arma do tipo AKM equipada com silenciador tornam o caso ainda mais intrigante.

Não faz sentido as condições nas quais ele morre. Pelo que se diz, usaram silenciador. Ninguém por perto ouviu o barulho. Os seus trabalhadores não ouviram nada. Só foi encontrado morto pela manhã. Não se ouviu disparo, não se ouviu movimentação. Num armamento do tipo AKM, que normalmente faz um barulho elevado. Está perfeito demais esse crime para não ter o apadrinhamento de pessoas poderosas”, afirmou.

Na visão do analista político, o impacto do caso ultrapassa as fronteiras nacionais e afecta a imagem de Moçambique perante a comunidade internacional.

Dentro da comunidade internacional, a mensagem que transmitimos é a de que Moçambique é um Estado falhado, um Estado que não consegue garantir a segurança dos seus cidadãos e que permitiu que um servo de Deus se tornasse vulnerável sem a devida protecção. Estamos a ser olhados como um Estado fraco”, disse.

Sobre o que deve ser feito para evitar casos semelhantes, Mangunene defendeu o reforço da presença das forças de defesa e segurança junto das comunidades, sobretudo durante a noite, período em que considera que a criminalidade tende a aumentar.

O governo deve melhorar a segurança. Temos de tirar lições deste crime e também dos raptos que acontecem no país. A nossa sociedade está vulnerável e precisa de um Estado presente. A polícia deve estar presente perto dos cidadãos”, afirmou.

O pastor recordou ainda os programas de patrulhamento comunitário realizados em anos anteriores, defendendo que, apesar das críticas que enfrentaram, contribuíram para reduzir os índices de criminalidade em vários pontos do país.

Durante aquele período de patrulhamento, o índice de criminalidade baixou bastante. Principalmente na calada da noite e da madrugada, que é quando o crime mais se intensifica. Enquanto estamos em guerra, as Forças de Defesa e Segurança podiam ajudar mais no patrulhamento para reforçar o trabalho da polícia e garantir maior segurança aos cidadãos”, concluiu.

A morte de Dom Osório Citora Afonso continua a provocar ondas de consternação e debate público, num momento em que crescem os questionamentos sobre a capacidade das autoridades de garantir a segurança de cidadãos e figuras de referência na sociedade.

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