Quitéria Guiringane diz que exoneração de Samaria Tovela não apaga o caos estrutural da educação

Maputo (O Destaque) – A exoneração de Samaria Tovela do cargo de ministra da Educação e Cultura não deve servir para esconder os problemas estruturais que continuam a comprometer o funcionamento do sector. A posição é defendida por Quitéria Guiringane, que considera irresponsáveis as declarações da antiga governante segundo as quais os professores não sabem gerir os seus salários, numa altura em que a classe enfrenta dificuldades relacionadas com as condições de trabalho, a falta de materiais didácticos e os desafios da aprendizagem.

Na sua reacção à exoneração, Guiringane entende que a saída de Tovela não pode ser analisada isoladamente, como se a crise da educação tivesse começado com a sua nomeação ou se resumisse às suas últimas declarações. Para a activista, os problemas atravessam sucessivas lideranças ministeriais e exigem respostas que vão além da substituição de dirigentes.

“De alguma forma, é preciso começar por dizer que as declarações dela são bastante irresponsáveis, ainda mais num contexto em que o sector da educação nunca teve a capacidade de pedir desculpas aos professores”, afirmou.

Guiringane recorda que os professores continuam a exercer as suas funções em condições que considera adversas, enfrentando dificuldades que vão desde a falta de material didáctico até à insuficiência de carteiras e de outros recursos essenciais para o processo de ensino e aprendizagem.

Na sua análise, a situação torna-se ainda mais preocupante quando os alunos percorrem longas distâncias para chegar às escolas, frequentam salas de aulas com condições inadequadas e enfrentam dificuldades de acesso à alimentação. A isso, acrescenta os problemas de violência e bullying no ambiente escolar, que exigem maior intervenção das autoridades educativas.

Para a activista, a liderança do sector deveria assumir uma posição firme na defesa dos professores e na criação de condições para o exercício da actividade docente, sem deixar de exigir responsabilidade profissional e ética quando se verificam falhas.

Uma crise que atravessa várias lideranças

Quitéria Guiringane sustenta que a exoneração de Samaria Tovela deve ser enquadrada numa análise mais ampla sobre a gestão da educação em Moçambique. Na sua perspectiva, a sucessão de dirigentes não tem sido acompanhada de mudanças suficientemente profundas para responder aos problemas persistentes do sistema.

A activista recorda que, durante vários anos, houve apelos à exoneração de anteriores responsáveis pelo sector, mas nem sempre foram acompanhados de uma avaliação pública das suas decisões e dos resultados alcançados.

Ao recuperar a experiência de Jorge Ferrão, em 2015, Guiringane destaca a importância de promover diagnósticos e envolver diferentes actores, dentro e fora da academia, na procura de soluções para os problemas da educação.

Na sua leitura, o sector precisa de capacidade de autocrítica, de avaliação das políticas implementadas e de mecanismos efectivos de responsabilização. A simples mudança de ministros, considera, não garante a transformação necessária.

A activista também questiona a falta de esclarecimentos sobre as responsabilidades decorrentes de problemas anteriormente investigados no sector, defendendo que os processos de avaliação não devem depender apenas da permanência ou saída de determinados dirigentes.

Edson Macuácua terá de demonstrar resultados

Com a nomeação de Edson Macuácua para liderar o sector, Guiringane considera legítimo questionar os resultados que o novo ministro poderá apresentar, tendo em conta a sua experiência anterior em funções ligadas à Educação, Ciência e Ensino Superior.

Para a activista, um currículo académico extenso, por si só, não constitui garantia de transformação. O desafio consiste em demonstrar capacidade para converter conhecimentos, experiência e políticas públicas em resultados concretos para professores e alunos.

“Não basta apresentar um currículo académico extenso. Governar um sector exige capacidade de transformar políticas em resultados concretos”, defendeu.

Guiringane entende, igualmente, que a educação precisa de uma liderança capaz de romper com práticas instaladas e de introduzir novas formas de gestão. Ao defender a entrada de alguém que esteja fora das actuais estruturas de poder do sector, esclarece que não pretende afirmar que os anteriores dirigentes estejam necessariamente envolvidos em irregularidades, mas sublinha a importância de uma liderança que não esteja condicionada pelas redes e dinâmicas existentes.

Questionada sobre se Samaria Tovela estaria preparada para dirigir o sector, a activista deslocou o debate para aquilo que considera ser a questão central: os resultados concretos alcançados durante o exercício das suas funções.

Educação precisa de reformas para o século XXI

Para além das mudanças na liderança, Quitéria Guiringane defende uma reflexão profunda sobre o modelo de educação que o país pretende construir. Na sua perspectiva, o sector continua a enfrentar dificuldades para acompanhar as transformações tecnológicas e as novas exigências da aprendizagem.

A activista considera que a digitalização, o uso da inteligência artificial e a actualização dos conteúdos escolares devem fazer parte do debate nacional sobre a educação, em vez de o sistema continuar concentrado em respostas pontuais para problemas recorrentes.

Na sua análise, a ausência de um debate consistente sobre o futuro do ensino limita a capacidade de preparar os alunos para os desafios contemporâneos e de estabelecer prioridades claras para a utilização dos recursos disponíveis.

Guiringane defende, por isso, que a actual crise deve ser encarada como uma oportunidade para rever prioridades, melhorar a gestão das despesas, reforçar o investimento nas áreas essenciais e discutir os conteúdos curriculares.

A activista reconhece que reformas profundas podem ser acompanhadas de turbulências, mas considera que a transformação do sector exige coragem política, capacidade de avaliação e disposição para alterar práticas que não têm produzido os resultados esperados.

No entender de Quitéria Guiringane, a exoneração de Samaria Tovela só terá significado para o futuro da educação se for acompanhada de mudanças concretas. Caso contrário, a substituição de uma ministra por outro dirigente poderá representar apenas mais um episódio numa crise que continua à espera de soluções duradouras.

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