Reitor Júlio Gonçalves diz que a paz não é o calar das armas, mas é preciso cultivá-la

Maputo (O Destaque) – O Reitor do Instituto Superior de Gestão, Contabilidade e Finanças (ISGECOF), Júlio Gonçalves, defende que a paz em Moçambique não deve ser entendida apenas como ausência de confrontos armados, mas como um sentimento construído diariamente através do respeito pelo próximo, pela diversidade e pela convivência social.

Falando ao Jornal O Destaque, por ocasião do Dia da Paz, o académico afirmou que “a paz não é o calar das armas”, considerando que ela precisa de ser cultivada por todos os cidadãos, à semelhança de uma planta que necessita de cuidados para crescer e florescer.

“A paz tem que ser cultivada. É como uma flor, como uma árvore, uma planta. Se nós plantarmos qualquer planta e não a regarmos, essa planta não vai crescer, não vai florescer. O que vai acontecer? Vai morrer”, explicou.

O Reitor do ISGECOF reconheceu que Moçambique vive um período de paz relativa, recordando o Acordo Geral de Paz assinado em Roma, em 1992, entre o Governo e a RENAMO, que pôs fim à guerra dos 16 anos.

Para o académico, o desafio actual passa por fazer com que os compromissos políticos sejam acompanhados por comportamentos e acções concretas no quotidiano.

Segundo afirmou, apesar do silêncio das armas alcançado após o acordo de 1992, o país continua a enfrentar episódios de tensão associados, entre outros factores, aos processos eleitorais e ao conflito armado em Cabo Delgado.

“Em Moçambique, de eleição em eleição, há confrontos, há destruições”, observou, apontando a ambição e a falta de compromisso com o interesse colectivo como alguns dos factores que podem fragilizar a paz.

Paz exige responsabilidade colectiva

O académico entende que a construção da paz não pode ser responsabilidade exclusiva do Governo ou dos partidos políticos. Para ele, cada cidadão deve assumir o seu papel a partir do espaço que ocupa na sociedade.

Na sua leitura, um professor deve cumprir com responsabilidade a sua missão de educar, um profissional de saúde deve prestar um atendimento humanizado, os órgãos de comunicação social devem informar e educar a sociedade e os agentes de defesa devem cumprir a sua missão de proteger o país.

“Para nós termos uma verdadeira paz, precisamos, como um todo, cada um dando o seu melhor para este país”, defendeu.

O Reitor apelou igualmente aos órgãos de comunicação social para que assumam uma postura de promoção dos valores da paz, evitando conteúdos que possam estimular a violência.

“O vosso papel, como órgãos de comunicação social, é educar a sociedade nos valores mais nobres da paz, não excitar a violência para destruir o pouco que nós temos que se chama paz”, afirmou.

Diálogo Nacional Inclusivo

Sobre o actual processo de Diálogo Nacional Inclusivo, o académico considera que os entendimentos políticos têm influência directa sobre o desenvolvimento económico e social do país.

Na sua perspectiva, questões políticas, económicas e sociais estão interligadas, sendo necessário alcançar consensos políticos para criar condições de estabilidade e desenvolvimento.

“Se os aspectos políticos não são bem consentâneos, a economia não vai desenvolver”, sustentou.

O Reitor recordou ainda outros momentos da história de Moçambique, incluindo o Acordo de Lusaka, de 1974, e os processos que se seguiram à independência nacional, para defender que diferentes fases da construção do Estado moçambicano foram marcadas por decisões e acordos de natureza política.

Sobre eventuais alterações aos poderes do Presidente da República, observou que qualquer mudança estrutural nesse domínio deve respeitar a Constituição da República, uma vez que as competências presidenciais estão estabelecidas na Lei Fundamental.

 Paz também passa pela independência económica

Na parte final da entrevista, o académico associou a consolidação da paz ao desenvolvimento económico e à capacidade de Moçambique alcançar maior independência económica.

Para ele, a actual luta do país não deve ser vista apenas no campo militar, mas também no domínio ideológico e económico.

“A nossa guerra agora, a nossa luta, não só se reveste em armas, mas na parte ideológica, sobretudo na parte da economia, portanto, a independência económica”, afirmou.

Dirigindo-se aos moçambicanos, apelou à preservação da paz e ao respeito pela memória daqueles que perderam a vida durante os diferentes períodos de conflito no país.

“Não se deixe vulgarizar-se contra a nossa paz”, apelou, defendendo que cada cidadão deve contribuir para a construção de um país mais pacífico, através do trabalho, da responsabilidade e do respeito pelo próximo.

Para o Reitor, a paz que Moçambique procura consolidar não depende apenas de novos acordos, mas também da capacidade de cada cidadão transformar os valores da paz em prática diária.

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