Relatório da ONU denuncia “bolada” de sexo na ajuda humanitária em Moçambique

Maputo (O Destaque) -A ajuda humanitária destinada às populações afectadas por conflitos no país tem sido beliscada por graves casos de exploração sexual, de acordo com um alerta recente da Organização das Nações Unidas (ONU). A denúncia, que ecoa preocupações levantadas por activistas locais há anos, revela uma realidade chocante onde mulheres e meninas vulneráveis são coagidas a trocar sexo por bens essenciais como alimentos.

A DW, em sua reportagem, trouxe à tona o depoimento do activista Abudo Gafuro, fundador da organização Kwendeleya em Cabo Delgado. Gafuro confirmou a prática de “troca de produtos alimentares por sexo”, uma denúncia que ele e sua equipe têm feito desde 2022. “Quando esta informação vem das instituições das Nações Unidas é muito bem-vinda para o mundo e a sociedade em geral saberem o que é que está a acontecer e o que está por trás de vários circuitos de ajuda humanitária”, afirmou Gafuro à DW.

Segundo o activista, os agressores, por vezes colaboradores das próprias organizações, ameaçam as famílias das vítimas com a interrupção do apoio humanitário caso os abusos sejam denunciados. Essa táctica de intimidação silencia as vítimas e cria um ciclo de impunidade. O representante da ONU, Christian Saunders, fez a denúncia durante um encontro em Maputo, após o 16º Relatório Anual do Secretário-Geral da ONU sobre violência sexual relacionada com conflitos. O documento aponta Moçambique como o único país de língua portuguesa a registrar casos de violência sexual contra mulheres, meninas e migrantes em 2024.

O alerta da ONU, embora bem-vindo, destaca a urgência de uma acção coordenada. Abudo Gafuro sublinhou a necessidade de responsabilização e justiça. “No ano passado, início deste ano, tivemos algumas denúncias no Ministério Público moçambicano que despoletaram um caso que foi julgado e houve condenação – no distrito de Metuge”, revelou Gafuro, indicando que, apesar das dificuldades, a justiça pode ser alcançada.

Enquanto a Associação Kwendeleya e outras organizações trabalham na sensibilização das comunidades em centros de reassentamento, o desafio persiste. A barreira da língua e a falta de capacidade de comunicação eficaz com as populações locais, muitas das quais analfabetas, dificultam a disseminação de informações e a protecção das vítimas. O apelo dos activistas é claro, é preciso falar a língua das pessoas para que a mensagem de segurança e protecção possa ser ouvida e compreendida por quem mais precisa.

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