Maputo (O Destaque) – O analista político Albino Manguene considera que a exposição de artigos de luxo por dirigentes de empresas públicas, num contexto marcado pela pobreza e pelas dificuldades financeiras da maioria da população moçambicana, levanta sérias questões de natureza ética e moral.
A posição surge na sequência da manchete do Jornal O Destaque desta segunda-feira (2), que aborda o relógio Apple Watch Ultra associado ao Presidente do Conselho de Administração (PCA) da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH), apresentado como um artigo de luxo cujo valor corresponde a cerca de meio ano de salário mínimo.
Em entrevista ao O Destaque, Manguene defendeu que, embora os dirigentes tenham direito a condições dignas de vida, a exposição de bens de elevado valor deve ser analisada à luz da realidade socioeconómica do país, onde uma parte significativa da população enfrenta dificuldades para satisfazer necessidades básicas.
“Não permite que um dirigente ostente demasiado luxo, tendo em mente que o nível da pobreza é extremo”, afirmou o analista, acrescentando que a exibição de um relógio avaliado em milhões de meticais pode ser interpretada como um insulto ao contribuinte.

Na sua análise, o problema ganha outra dimensão quando se considera que os cidadãos contribuem para a manutenção do Estado na expectativa de beneficiarem de serviços públicos de qualidade, mas continuam a enfrentar limitações no acesso à assistência e ao atendimento.
“Essa contribuição não retorna ao contribuinte em forma de serviços de qualidade, mas reflecte-se na vida do dirigente em forma de qualidade de vida”, observou.
O analista considera ainda que a situação evidencia a necessidade de discutir os níveis salariais dos gestores das empresas e instituições públicas. Para Manguene, a inexistência de um limite máximo salarial abre espaço para diferenças remuneratórias elevadas entre dirigentes, defendendo, por isso, a criação de um tecto salarial ajustado à realidade socioeconómica do país.
“Da mesma forma que há um salário mínimo, tem que haver um salário máximo”, sustentou, argumentando que a medida permitiria maior controlo sobre os encargos do Estado e uma utilização mais equilibrada dos recursos públicos.
Manguene defendeu igualmente a necessidade de estabelecer limites às despesas da função pública, considerando que os recursos disponíveis devem ser geridos com responsabilidade e orientados para prioridades que produzam benefícios colectivos.
Por outro lado, alertou que a exposição de bens de luxo num ambiente de profundas desigualdades sociais pode aumentar o sentimento de injustiça entre diferentes segmentos da sociedade.
Segundo explicou, a percepção de que uma parte da população enfrenta dificuldades enquanto outra beneficia de condições privilegiadas pode aprofundar divisões sociais e alimentar tensões e conflitos.
A reflexão do analista coloca, assim, no centro do debate a responsabilidade ética dos gestores de empresas públicas, a transparência na utilização dos recursos e a necessidade de aproximar os padrões de liderança da realidade económica do país.
