Maputo (O Destaque) – Presidente do PIMO considera que a vitória de Lula da Silva reflecte a preferência dos eleitores por um modelo de governação que garante acesso dos mais pobres à saúde, educação, emprego e habitação.
O presidente do Partido Independente de Moçambique (PIMO), Yáqub Sibindy, considera que a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência do Brasil demonstra que os eleitores podem privilegiar as políticas sociais e o modelo de governação em detrimento da identificação partidária. Em entrevista exclusiva concedida ao Jornal O Destaque, o político moçambicano defendeu que o resultado eleitoral deve ser analisado à luz das condições de vida da população brasileira.
A vitória de Lula surgiu num cenário de disputa renhida com Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal (PL), que havia terminado a primeira volta na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% obtidos pelo candidato do Partido dos Trabalhadores (PT). Na segunda volta, realizada a 25 de Outubro, Lula conseguiu inverter o resultado e foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral do Brasil.
Para Sibindy, a explicação para a vitória de Lula deve ser procurada nas políticas sociais associadas à sua governação, sobretudo no acesso dos cidadãos de baixa renda aos serviços básicos e às oportunidades económicas.
“Não votaram no partido PT, não votaram no Lula. Votaram no sistema do Lula que dá acesso às riquezas do Brasil aos pobres, sem perguntar qual é a sua cor política”, afirmou o presidente do PIMO, defendendo que a população valoriza cada vez mais as propostas concretas de governação.
O político entende que o acesso à assistência médica, à habitação, à universidade e ao emprego constitui um elemento importante para compreender a preferência eleitoral de parte da população brasileira. Na sua perspectiva, os eleitores devem ser avaliados também em função das suas necessidades sociais e económicas.
Durante a entrevista, Yáqub Sibindy levantou suspeitas de manipulação eleitoral, questionando os resultados que colocaram Flávio Bolsonaro na dianteira da primeira volta. O dirigente, contudo, não apresentou provas que sustentem a alegação de que os resultados eleitorais tenham sido manipulados.
“Então, tudo foi manipulado. É manipulação”, declarou, ao defender a necessidade de investigar as razões que explicariam a diferença entre as expectativas criadas antes da votação e o resultado final.
Apesar das suspeitas levantadas durante a conversa, Sibindy considerou que Lula venceu de forma legítima, afirmando, sem hesitação, que o candidato do PT conquistou a confiança dos eleitores.
“Sem dúvida”, respondeu, quando questionado se considerava que Lula havia vencido de forma justa, transparente e clara.
O presidente do PIMO recorreu ainda à sua experiência política para justificar a desconfiança que diz manter em relação aos processos eleitorais. Segundo afirmou, deixou de participar nas eleições desde 2004 por ter perdido confiança no sistema eleitoral.
“Eu perdi confiança com o sistema eleitoral”, declarou, defendendo a necessidade de se repensar o modelo de escolha dos governantes em Moçambique.
No plano nacional, Sibindy propõe uma mudança profunda no sistema eleitoral moçambicano. O dirigente defende o abandono do modelo centrado na escolha de partidos políticos em favor de um sistema em que os cidadãos possam pronunciar-se sobre programas e agendas de governação.
“Nós precisamos acabar com a votação secreta. Vamos instituir um sistema de referendo público”, afirmou, defendendo que os eleitores devem ter maior influência sobre as prioridades e os compromissos assumidos pelos governantes.
Na sua visão, a disputa política deve privilegiar projectos concretos, com metas e propostas sustentáveis, em vez de se concentrar exclusivamente nos partidos e nas figuras que os representam.
“O poder está na economia, meu filho. O poder não está no partido político, não está na ideologia. Não é ideologia com barriga vazia”, declarou.
O dirigente considera que os programas de governação devem responder às necessidades fundamentais da população, com destaque para o emprego, a habitação, a educação e o acesso aos serviços essenciais.
Durante a conversa, o presidente do PIMO lançou um desafio ao Jornal O Destaque, propondo a realização de uma missão de investigação ao Brasil para compreender as razões sociais e económicas que levaram os eleitores a apoiar os dois candidatos.
O político defendeu que uma análise directa das condições de vida dos eleitores permitiria compreender melhor os factores que influenciaram a votação e a reviravolta registada na segunda volta.
A proposta, segundo explicou, deveria contribuir para uma leitura mais aprofundada do comportamento eleitoral e das expectativas dos cidadãos em relação aos modelos de governação.
Ao relacionar o caso brasileiro com a realidade moçambicana, Sibindy insistiu na necessidade de se reflectir sobre a credibilidade dos processos eleitorais e sobre a capacidade dos programas políticos de responderem aos problemas concretos da população.
A entrevista termina com uma defesa de maior centralidade das agendas de governação no debate político, numa altura em que a vitória de Lula da Silva, depois de ter ficado atrás de Flávio Bolsonaro na primeira volta, marca uma reviravolta na disputa presidencial brasileira.
