Maputo (O Destaque) – O Pico dos ataques xenófobos na África do Sul está a gerar uma onda de indignação entre as comunidades Nacionais residentes naquele país. Enquanto o Governo tem sustentado que os cidadãos nacionais se encontram em segurança, relatos vindos do terreno apontam para um cenário dramático, marcado por mortes, feridos, deslocações forçadas e destruição de património.
Em entrevista ao Destaque, o activista moçambicano residente na África do Sul, Celso Chambeze, classificou como “irresponsáveis” as declarações das autoridades que minimizaram a gravidade da situação.
Segundo Chambeze, não é possível avaliar a realidade vivida por mais de um milhão de moçambicanos apenas com base em relatórios diplomáticos.
“Não se pode medir o palpitar de uma fasquia de acima de um milhão de pessoas através da opinião de pessoas que não vão ao terreno”, afirmou.
O activista criticou particularmente a actuação da Ministra dos Negócios Estrangeiros, alegando que, apesar da sua longa experiência diplomática na África do Sul, desconhece a localização e os desafios enfrentados pelas comunidades moçambicanas espalhadas pelo território sul-africano.
Contrariando as informações oficiais, Chambeze relatou casos concretos de violência extrema.
Entre os episódios citados está o incêndio da residência de uma cidadã moçambicana identificada como senhora Mabunda, que se encontrava dentro da habitação juntamente com uma criança quando o imóvel foi incendiado.
“Colocaram combustível e incendiaram a casa da senhora. Isso é muito triste”, lamentou.
O activista afirma ainda que o número de vítimas mortais associadas aos ataques xenófobos já ascendeu para nove moçambicanos.
De acordo com a sua descrição, sete pessoas morreram directamente em actos de violência xenófoba, enquanto outras duas perderam a vida durante a fuga para Moçambique após terem sido traumatizadas pelos ataques.
“São mortos de ataques directos de xenofobia”, enfatizou.
“Chapo esqueceu-se de mais de um milhão de moçambicanos”
Durante a entrevista, Chambeze dirigiu críticas severas ao Presidente da República, Daniel Chapo, acusando-o de ignorar o sofrimento dos moçambicanos residentes na África do Sul.
Segundo o activista, durante a recente deslocação presidencial ao país vizinho, o chefe de Estado privilegiou questões económicas e diplomáticas em detrimento da situação humanitária vivida pelos compatriotas.
“Esqueceu-se de mais de um milhão de moçambicanos. Estamos a falar de vidas humanas acima de tudo”, declarou.
Chambeze considera que o Governo deveria ter adoptado uma postura mais próxima das comunidades afectadas, deslocando equipas para o terreno, oferecendo apoio psicológico e orientações de segurança, além de disponibilizar instalações diplomáticas como locais de acolhimento temporário para cidadãos em risco.
O activista revelou que os ataques continuam a ocorrer em algumas das zonas mais populosas por cidadãos nacionais.
Segundo relatou, no momento da entrevista havia registo de novas investidas de grupos hostis contra estrangeiros numa área denominada Resort Inverno, em Joanesburgo.
“Neste momento, este grupo que ataca está lá a atacar”, alertou.
Para Chambeze, uma simples mensagem de solidariedade e orientação por parte do Governo poderia contribuir para reduzir o pânico e salvar vidas.
Questionado sobre o impacto dos ataques nas relações entre Moçambique e África do Sul, Chambeze rejeitou a ideia de uma relação equilibrada entre os dois países.
Na sua visão, a cooperação económica beneficia de forma desproporcional a África do Sul.
O activista argumenta que muitos moçambicanos desempenham trabalhos pesados e pouco valorizados no território sul-africano, enquanto os sul-africanos que trabalham em Moçambique ocupam frequentemente posições técnicas em grandes projectos.
“Estamos perante um parceiro que não é parceiro”, afirmou.
“Não existe amizade entre ANC e FRELIMO”
Num dos momentos mais contundentes da entrevista, Celso Chambeze colocou em causa a narrativa histórica de amizade entre Moçambique e África do Sul.
Segundo ele, as relações entre a FRELIMO e o ANC são actualmente sustentadas sobretudo por interesses políticos e económicos.
“O ANC de Nelson Mandela não é o ANC de Ramaphosa. A FRELIMO de Samora Machel não é a FRELIMO de Chapo”, declarou.
O activista afirmou ainda que persistem ressentimentos históricos não resolvidos entre figuras veteranas dos dois países, situação que, na sua opinião, compromete a construção de uma relação genuína entre os povos.
“Não existe amizade entre o ANC e a FRELIMO, este teatro”, afirmou.
Para Chambeze, a ausência de um processo de reconciliação histórica poderá fazer com que futuras gerações herdem desconfianças e animosidades acumuladas ao longo dos anos.
No encerramento da entrevista, o activista resumiu a actual relação entre os dois países como uma parceria baseada essencialmente em interesses.
“O que existe entre as duas partes são relações de interesse. Um ganha mais e o outro ganha menos. É o que prevalece neste momento”, concluiu.
Enquanto prosseguem os relatos de violência e deslocação de cidadãos Nacionais na África do Sul, cresce a pressão para que as autoridades de ambos os países reforcem os mecanismos de protecção das comunidades afectadas e encontrem soluções duradouras para travar a escalada da xenofobia.
