João Feijó avisa: “criar oportunidades longe de Cabo Delgado alimenta sentimentos de abandono”

Maputo (O Destaque) – A decisão de realizar, em Maputo, a fase inicial da formação dos jovens seleccionados para a Academia Mozambique LNG continua a gerar contestação em Cabo Delgado. Depois da posição pública do Fórum das Organizações da Sociedade Civil de Cabo Delgado (FOCADE), o investigador João Feijó considera que a medida pode aprofundar o sentimento de exclusão entre os jovens da província e enfraquecer o verdadeiro conceito de conteúdo local.

Em declarações ao Jornal O Destaque, Feijó defendeu que os centros de formação devem ser implantados nas regiões onde existem os grandes investimentos, para que as comunidades anfitriãs beneficiem directamente das oportunidades criadas.

Segundo o investigador, faz pouco sentido concentrar a formação na capital do país quando o projecto de gás natural liquefeito está instalado em Cabo Delgado.

Os jovens devem ser formados onde existem as empresas. Não faz sentido criar centros de formação longe das áreas onde estão os investimentos”, afirmou.

Na sua análise, a opção de realizar a capacitação em Maputo reforça a percepção de que as melhores oportunidades continuam concentradas no sul do país, deixando as populações locais à margem dos benefícios gerados pelos recursos naturais existentes nas suas próprias comunidades.

Feijó advertiu que este tipo de decisões pode aumentar o descontentamento social numa província que, há vários anos, enfrenta desafios de segurança e elevadas expectativas em torno dos megaprojectos.

O investigador sublinhou que o problema vai além da actuação dos grupos armados e está ligado à falta de perspectivas para milhares de jovens.

Não faz sentido alimentar sentimentos de abandono e de frustração numa região onde estão os recursos naturais e onde as populações esperam beneficiar dessas oportunidades”, sustentou.

Para João Feijó, existem diferentes formas de revolta social que resultam da ausência de emprego, da exclusão económica e da falta de perspectivas de futuro, factores que podem criar um ambiente favorável à penetração de discursos violentos.

O risco é muito mais abrangente. Quando as pessoas não encontram oportunidades e sentem que foram criadas expectativas que nunca se concretizam, tornam-se mais vulneráveis à mobilização por ideias radicais”, alertou.

O académico defendeu que o conteúdo local não deve limitar-se à contratação de trabalhadores, mas incluir igualmente investimentos na formação profissional, no fortalecimento das instituições de ensino e na criação de oportunidades económicas para as comunidades directamente afectadas pelos grandes projectos.

A polémica surgiu depois de o FOCADE contestar a realização da formação inicial da Academia Mozambique LNG na Matola, considerando que Cabo Delgado possui instituições, infra-estruturas e condições para acolher essa componente do programa. A organização entende que a decisão representa uma oportunidade perdida para dinamizar a economia provincial e reforçar as capacidades técnicas locais, apelando à TotalEnergies, ao Governo e aos parceiros envolvidos para privilegiarem a província nas próximas fases da iniciativa.

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