Calton Cadeado entende que Trump não tem poder para transformar o Estreito de Hormuz em propriedade dos EUA

Maputo (O Destaque) – A intenção de Donald Trump de colocar o Estreito de Hormuz sob controlo dos Estados Unidos é uma pretensão difícil de concretizar, segundo o analista de assuntos internacionais Calton Cadeado, que considera a declaração do Presidente norte-americano mais ligada à pressão política e económica do momento do que a uma estratégia consolidada do Estado americano.

Em reacção ao O Destaque, Cadeado entende que Washington enfrentaria forte resistência internacional caso tentasse manter uma presença prolongada no estreito, uma das principais rotas mundiais para o transporte de petróleo.

Esta é uma pretensão que Donald Trump está a colocar, mas é quase impossível de ser materializada”, afirmou o analista, apontando, entre outros factores, a provável oposição dos países da região e a condenação internacional.

Para Cadeado, a posição de Trump também deve ser entendida no contexto da pressão sobre os mercados internacionais e da preocupação com o aumento dos preços dos combustíveis. O analista considera que o Estreito de Hormuz se transformou numa das principais ferramentas de pressão económica do Irão.

“O Estreito de Hormuz é, neste momento, a bomba nuclear do Irão”, afirmou, numa referência ao peso estratégico que a passagem marítima representa para Teerão.

O analista considera ainda que a ameaça de controlo do estreito pode funcionar como uma tentativa de transmitir segurança aos mercados, numa altura em que qualquer interrupção prolongada da circulação marítima naquela zona pode afectar o fornecimento mundial de petróleo e pressionar os preços.

Questionado sobre a ausência de sanções contra os Estados Unidos, em comparação com as medidas adoptadas contra a Rússia após a invasão da Ucrânia, Cadeado aponta para a posição de Washington no sistema internacional.

Segundo o analista, os Estados Unidos beneficiam da sua condição de superpotência e possuem capacidade económica e política para responder a eventuais medidas de outros países.

Quem é a superpotência tem os meios de poder para se proteger contra qualquer tipo de sanção que possa vir dos outros países do mundo”, explicou.

Cadeado considera, por isso, que a actual política externa de Trump deve ser analisada também à luz da estratégia económica de Washington, que, segundo ele, procura utilizar o peso do mercado norte-americano para limitar possíveis respostas internacionais.

Sobre as dificuldades de negociação entre Washington e Teerão, o analista entende que estão em causa interesses estratégicos profundos. Para o Irão, a sobrevivência do regime continua a ser uma prioridade, enquanto os Estados Unidos procuram preservar a sua posição e a dos seus aliados na região, particularmente Israel.

Na leitura de Cadeado, apesar dos danos provocados pelas operações militares, os objectivos mais ambiciosos não foram alcançados. O regime iraniano não caiu e a capacidade de Teerão para continuar a fazer a guerra também não foi totalmente eliminada.

Para o analista, a actual disputa em torno do Estreito de Hormuz representa, assim, muito mais do que uma questão militar: é também uma batalha económica e estratégica com impacto directo nos mercados e na estabilidade internacional.

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