Maputo (O Destaque) – No seguimento da polémica sobre o relógio de luxo do Presidente do Conselho de Administração (PCA), da Empresa Hidrocarbonetos (ENH), o professor Julião Cumbane fez um comentário crítico.
Numa altura em que a pobreza continua a marcar a realidade de milhares de moçambicanos e as desigualdades sociais permanecem evidentes, Cumbane considera que, independentemente da origem do relógio, a postura de um dirigente de uma empresa pública deve ser analisada à luz da ética, da responsabilidade e do contexto socioeconómico do país.
Em declarações ao Destaque, Cumbane afirmou que não considera eticamente apropriado que um servidor público, sobretudo alguém que ocupa uma posição de elevada exposição institucional, ostente artigos de luxo num momento em que a população enfrenta dificuldades económicas e manifesta desconfiança em relação às instituições públicas.
O analista considera que a questão não deve ser reduzida ao preço ou à marca do acessório, mas também à mensagem que a imagem transmite numa sociedade profundamente marcada pelas dificuldades económicas.
“É ético estar alguém, um servidor público, a viver ou a portar-se desse tipo de coisa num ambiente em que as pessoas desconfiam do próprio Governo? É um problema de ética”, questionou Cumbane, acrescentando que a posição ocupada pelo dirigente torna legítimo o escrutínio público sobre os seus comportamentos.
Apesar das críticas à dimensão ética, o analista reconhece que o PCA tem liberdade para adquirir bens com os seus próprios rendimentos, uma vez que também possui interesses e ambições pessoais. Contudo, entende que o contexto nacional exige sensibilidade e consciência sobre a realidade vivida pela maioria da população.

Cumbane defende, entretanto, que o jornal deveria procurar esclarecimentos junto do actual PCA da ENH, para evitar que o assunto permaneça no campo das especulação.
“Eu não conheço o relógio que ele está a usar, não sei de que marca é, nem se foi oferecido por parceiros ou se ele comprou com recursos próprios. Vocês poderiam ter-lhe perguntado”, observou.
Na sua perspectiva, por se tratar de um dirigente de uma empresa pública, Rudêncio Morais está sujeito ao escrutínio da sociedade e deve estar disponível para esclarecer questões relacionadas com a sua exposição pública.
“Ele está numa posição de exposição pública. Então, os actos dele devem ser transparentes. Ele pode esclarecer se o relógio lhe foi oferecido ou se o comprou com recursos próprios. Se usou os seus próprios recursos, não há problema. Mas nós não sabemos enquanto não fizermos a pergunta”, afirmou.
O analista considera, assim, que o questionamento levantado pelo Destaque é legítimo do ponto de vista ético, mas recomenda que a direcção do jornal procure ouvir igualmente o PCA da ENH, dando-lhe oportunidade de apresentar a sua versão sobre a origem do relógio.
O debate, portanto, não se resume à possibilidade de um dirigente possuir um artigo de luxo, mas à responsabilidade ética que acompanha o exercício de funções numa instituição pública, num país onde uma parte significativa da população continua a enfrentar dificuldades para satisfazer necessidades básicas.
