Maputo (O Destaque) – Sendo que o Brasil vai às urnas amanhã, 4 de Outubro, numa corrida marcada pela disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), e Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), o académico Cayndo Lopes Abdul Cadir considera que o ambiente político brasileiro está “muito tenso” e polarizado, prevendo uma disputa que poderá prolongar-se até ao segundo turno. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registou 12 candidaturas à Presidência da República para estas eleições.
Em reacção ao Jornal O Destaque, Cayndo Lopes Abdul Cadir afirmou que o actual cenário político brasileiro é caracterizado por uma forte divisão do eleitorado e por uma disputa concentrada entre os principais candidatos.
“O cenário político brasileiro, neste momento, eu prefiro dizer que está muito tenso, polarizado e, provavelmente, as eleições que amanhã irão acontecer não vão trazer um vencedor logo no primeiro turno.”
Segundo o académico, a possibilidade de um segundo turno está relacionada com a distribuição das intenções de voto e com a proximidade entre os principais concorrentes. Levantamentos divulgados na véspera da votação mostram, de facto, uma disputa concentrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, embora os números variem conforme o instituto e a metodologia. O Datafolha divulgado a 2 de Outubro, por exemplo, apontava Lula com 45% dos votos válidos contra 40% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e empate dentro da margem no cenário de segundo turno.
Entre esquerda e direita
Na leitura de Cayndo Lopes, a polarização eleitoral reflecte também diferentes visões sobre o papel do Estado e as prioridades económicas e sociais.
De um lado, o académico identifica os eleitores que se aproximam das propostas de Lula e que valorizam políticas públicas nas áreas da educação, saúde e apoio às populações consideradas mais vulneráveis.
Do outro, coloca os sectores que se identificam com Flávio Bolsonaro e que, segundo a sua análise, dão maior prioridade ao desenvolvimento económico, industrial e empresarial.
“O discurso brasileiro está muito polarizado”, resumiu.
O académico considera ainda que a dimensão internacional não pode ser ignorada na disputa eleitoral brasileira. Na sua análise, Estados Unidos e China acompanham com interesse os rumos políticos e económicos do Brasil, tendo em conta a importância estratégica do país e dos seus recursos.
Cayndo Lopes associa ainda Lula a uma política de aproximação ao chamado Sul Global e aos BRICS, enquanto identifica na candidatura de Flávio Bolsonaro uma orientação mais próxima dos Estados Unidos e do chamado Norte Global.
Bets entram na disputa eleitoral
Outro tema abordado pelo académico em reacção ao Jornal O Destaque foi a decisão do Governo Lula de proibir as chamadas bets, medida anunciada por meio de uma Medida Provisória em 25 de Setembro.
A decisão passou a proibir a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa no Brasil, abrangendo apostas desportivas e jogos online.
Para Cayndo Lopes, inicialmente poderia parecer que a medida teria efeitos políticos negativos para Lula, mas o académico entende que ela também responde a preocupações manifestadas por parte dos próprios apostadores, sobretudo em sectores de menor rendimento.
“Essa medida tomou em conta o seu eleitorado que já reclamava há muito tempo por conta das perdas que sofria.”
Na sua análise, a expansão das apostas terá contribuído para o endividamento de famílias e para comportamentos de dependência relacionados com jogos de azar. O Governo brasileiro, por sua vez, justificou a proibição com argumentos de interesse público e de protecção das famílias endividadas.
Ao mesmo tempo, o académico chama atenção para o impacto económico da medida, sobretudo sobre empresas que operavam no sector e sobre o financiamento de actividades desportivas, particularmente o futebol.
Para Cayndo Lopes, a decisão ainda poderá passar por diferentes instâncias institucionais antes de um desfecho definitivo, mas, na sua leitura, não deverá alterar significativamente a dinâmica da corrida eleitoral.
Economia divide eleitorado
Sobre o peso do custo de vida e da economia na disputa entre lulismo e bolsonarismo, Cayndo Lopes entende que existem duas visões distintas sobre o desenvolvimento do Brasil.
Segundo o académico, os apoiantes de Lula tendem a valorizar políticas de bem-estar social, acesso à saúde, educação e inclusão de grupos que considera historicamente marginalizados.
Já os eleitores que apoiam Flávio Bolsonaro, na sua leitura, colocam maior ênfase no crescimento económico, industrial e empresarial.
“Eu vejo que a economia, o discurso sobre a economia, é totalmente dividido.”
Cayndo Lopes considera que esta divisão ultrapassa a esfera económica e envolve também diferentes visões sobre a política externa e a soberania brasileira.
Segundo turno em perspectiva
Com a votação marcada para este domingo, 4 de Outubro, o académico considera que a fragmentação das candidaturas poderá levar a uma segunda volta, na qual os candidatos que ficarem de fora terão de definir alianças e negociar apoios.
“O cenário actual aponta para uma eleição que poderá não ter um vencedor no primeiro turno”, afirmou.
O TSE estabelece 4 de Outubro como data do primeiro turno e 25 de Outubro para eventual segundo turno.
Para Cayndo Lopes, os resultados do primeiro turno poderão, assim, abrir uma nova fase de negociações políticas, com as forças que não avançarem para a segunda volta a procurarem definir o seu posicionamento perante os dois candidatos que eventualmente permaneçam na disputa.
A análise do académico ocorre num momento em que as últimas pesquisas mostram uma disputa concentrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas também indicam que parte do eleitorado ainda pode alterar a sua escolha antes da votação.
