Maputo (O Destaque) – Por ocasião da efeméride das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), o Cientista Político e Filósofo Régio Conrado, Professor de Ciência Política e Filosofia da Universidade Eduardo Mondlane, congratula as Forças de Defesa e Segurança pela passagem da sua data comemorativa, enaltecendo a sua bravura, consistência, resistência e o espírito de sacrifício que têm demonstrado na missão de defender a Pátria, a soberania e a integridade territorial da República de Moçambique.
Num contexto marcado por desafios persistentes à segurança nacional, particularmente no Teatro Operacional Norte, e pela acelerada transformação tecnológica dos sistemas militares contemporâneos, o Cientista Político e Filósofo Régio Conrado defende o aprofundamento da modernização das Forças de Defesa e Segurança, com especial incidência na reformulação doutrinária, modernização do material militar, adaptação das capacidades tácticas e estratégicas e consolidação de uma arquitectura nacional de inteligência integrada.
Em entrevista ao O _Destaque_, o académico Régio Conrado considera que a modernização das forças tem contribuído para reforçar a capacidade de resposta aos grupos terroristas em Cabo Delgado, sublinhando, contudo, que a superioridade operacional contemporânea não depende exclusivamente da capacidade de fogo, mas também da qualidade da informação, da antecipação estratégica, da mobilidade, da vigilância e da capacidade de decisão.
Segundo o Cientista Político e Filósofo Régio Conrado, é necessário prosseguir com a modernização das infra-estruturas, dos meios e equipamentos militares, bem como com a permanente actualização da doutrina e das capacidades operacionais.
“Primeiramente, é necessário modernizar aquilo que constitui a infraestrutura e o material militar, letal e não letal, assegurar uma revitalização permanente da doutrina e adaptar, de forma consistente, as capacidades tácticas e estratégicas das nossas forças.”

Na sua leitura, a modernização das Forças de Defesa e Segurança deverá ser entendida como um processo permanente de adaptação institucional, doutrinária, tecnológica e operacional, adequado à natureza mutável das ameaças contemporâneas.
O académico considera que este processo tem produzido efeitos na contenção da actividade dos grupos terroristas em Cabo Delgado.
“As reformas e a modernização das Forças de Defesa e Segurança têm produzido um impacto estruturalmente positivo na contenção dos grupos terroristas na província de Cabo Delgado.”
A inteligência como centro da resposta estratégica
Para o Cientista Político e Filósofo Régio Conrado, por detrás da modernização das capacidades militares encontra-se igualmente a evolução da componente de inteligência, cuja eficácia depende da articulação entre diferentes instituições e fontes de informação.
“Por detrás da modernização das Forças de Defesa e Segurança existe igualmente um processo de modernização da nossa arquitectura de inteligência, envolvendo a inteligência militar, os serviços de inteligência e segurança do Estado, o SERNIC e outros dispositivos operativos com responsabilidades nesta matéria.”
Na sua análise, a conjugação entre inteligência, capacidade operacional, conhecimento do terreno e coordenação interinstitucional contribuiu para reduzir a capacidade ofensiva dos grupos terroristas.
“Estas questões ajudam também a compreender por que razão os grupos terroristas em Cabo Delgado perderam parte significativa da sua capacidade de fogo e da sua capacidade ofensiva, passando a actuar, em determinadas zonas, através de pequenos grupos dispersos, que continuam, contudo, a constituir uma ameaça para as populações de Cabo Delgado e Niassa.”

O académico acrescenta que a dispersão territorial destes grupos poderá igualmente representar uma tentativa de ampliar a área de actuação e obrigar as forças de segurança a distribuir os seus recursos por diferentes espaços operacionais.
“Podemos considerar que as Forças de Defesa e Segurança não apenas conseguiram conter estes grupos, mas também reduzir a sua capacidade de reprodução, de reorganização logística e, sobretudo, de condução de operações ofensivas.”
“O principal desafio tecnológico é a inteligência”
Questionado sobre a incorporação de tecnologias emergentes, nomeadamente drones e inteligência artificial, o Cientista Político e Filósofo Régio Conrado coloca a inteligência integrada no centro da arquitectura estratégica nacional.
“O primeiro grande aspecto é continuar a transformar a segurança numa questão de inteligência.”
Para o académico, o principal desafio tecnológico de Moçambique consiste em aprofundar uma arquitectura nacional de inteligência integrada, capaz de produzir conhecimento operacional, antecipar movimentos, melhorar a consciência situacional e proporcionar às forças uma capacidade de resposta mais célere e coordenada.
“O principal desafio tecnológico da República de Moçambique em matéria de segurança é aprofundar continuamente a arquitectura nacional de inteligência integrada.”
Segundo Régio Conrado, esta arquitectura deverá permitir a antecipação, a detecção precoce de ameaças, a análise de padrões de movimentação e a produção de informação operacional, fortalecendo a capacidade das forças para actuar preventivamente dentro dos parâmetros legais e estratégicos definidos pelo Estado.
“Uma inteligência integrada deverá ter capacidade não apenas para antecipar movimentos, mas também para permitir uma resposta mais célere e coordenada, através de uma forte capacidade de recolha, análise e produção de conhecimento sobre a actividade destes grupos.”
Essa arquitectura, acrescenta o Cientista Político e Filósofo, pressupõe a integração de diferentes fontes e instituições:
“Isso implica integrar informação proveniente da PRM, das Forças Armadas de Defesa de Moçambique, dos serviços de inteligência, das autoridades locais, das estruturas fronteiriças, das comunidades e dos parceiros regionais, num sistema comum de análise e produção de conhecimento.”
Drones: vigilância, reconhecimento e consciência situacional
O Cientista Político e Filósofo Régio Conrado defende igualmente o aprofundamento da utilização de sistemas aéreos não tripulados, particularmente para vigilância, reconhecimento, monitoria e detecção, incluindo drones de vigilância e de combate.
“Devemos continuar a aprofundar a utilização de drones de vigilância e de combate para vigilância permanente, sobretudo nas infra-estruturas críticas e em áreas extensas ou de difícil monitoria terrestre, particularmente nas províncias de Cabo Delgado e Niassa.”

Na sua perspectiva, os drones podem constituir instrumentos relevantes para ampliar a consciência situacional, acompanhar áreas de interesse e transmitir informação às forças terrestres, permitindo uma melhor coordenação das operações.
“Não se trata necessariamente de apostar apenas em drones armados. Precisamos também de sistemas de drones destinados à observação, ao reconhecimento e à detecção, capazes de identificar movimentos anómalos, acompanhar áreas de interesse e fornecer informação às forças terrestres com maior profundidade.”
Esta capacidade, segundo o académico Régio Conrado, deve estar integrada num sistema mais amplo de inteligência, evitando que a tecnologia seja utilizada de forma isolada.
A dimensão regional e a cooperação com o Ruanda
Sobre a presença das forças ruandesas no Teatro Operacional Norte, o Cientista Político e Filósofo Régio Conrado considera que a cooperação operacional com as forças moçambicanas deve ser analisada no quadro mais amplo da cooperação de segurança e da articulação entre capacidades militares, inteligência e relacionamento com as populações.
O académico reconhece melhorias nas capacidades operacionais das forças moçambicanas, incluindo no domínio da cartografia militar, inteligência geoespacial, capacidade de fogo, mobilidade, comando e controlo e adaptação das tácticas e estratégias ao terreno operacional.
“A capacidade de fogo, a capacidade de contenção, as reformas no domínio dos recursos humanos, o aperfeiçoamento das tácticas e estratégias e a melhoria das capacidades operacionais permitiram às Forças de Defesa e Segurança reforçar a sua capacidade de actuação no Teatro Operacional Norte.”
Para Régio Conrado, a dimensão militar deve, contudo, ser acompanhada por uma componente de aproximação às comunidades, comunicação estratégica e cooperação com as autoridades locais, uma vez que o conhecimento produzido pelas populações constitui uma componente relevante da arquitectura de inteligência.
Sobre a cooperação com o Ruanda, afirma:
“A articulação entre as forças ruandesas e as forças moçambicanas deve ser acompanhada por um trabalho permanente de comunicação e aproximação às populações, explicando o enquadramento da presença das forças ruandesas e a natureza da cooperação estabelecida.”
Na sua perspectiva, as comunidades não devem ser concebidas apenas como destinatárias da acção das forças, mas também como parte integrante de uma arquitectura mais ampla de conhecimento territorial e alerta precoce.

“As populações também integram, de forma relevante, aquilo que podemos designar por inteligência integrada. Esta arquitectura pressupõe a articulação entre as forças de defesa e segurança, as autoridades locais, as comunidades, os parceiros e outras estruturas que possuem conhecimento sobre o território.”
E conclui:
“A arquitectura de inteligência integrada constitui uma dimensão fundamental da resposta contemporânea às ameaças à segurança. A articulação entre as Forças de Defesa e Segurança de Moçambique, as forças ruandesas, as autoridades e as populações pode contribuir para fortalecer a consciência situacional, a prevenção e a capacidade de resposta no Teatro Operacional Norte.”
Em síntese, para o Professor de Ciencia Política, Régio Conrado, a modernização militar de Moçambique não deve ser reduzida à aquisição de equipamentos. Ela exige doutrina, inteligência, tecnologia, interoperabilidade, conhecimento do território, formação de recursos humanos e uma articulação permanente entre Estado, forças de defesa e segurança, autoridades locais, comunidades e parceiros regionais. Assume que “Felizmente é o que tem sido feito de forma coordenada por o sistema de Defesa e Segurança Moçambicano”.
