“É momento de reflexão”: Mauro Silva defende disciplina e unidade na Frelimo

Maputo (O Destaque) – A discussão sobre a exposição pública de divergências dentro da FRELIMO ganhou novos contornos após Filipe Paúnde, membro da Comissão Política e chefe da Brigada Central de Assistência à província de Nampula, acusar Eduardo Abdula de violar a disciplina partidária ao abordar publicamente alegadas interferências na vida interna da organização. A posição de Paúnde foi divulgada após declarações de Abdula durante uma marcha de saudação ao Presidente da FRELIMO, Daniel Chapo.

Em reacção ao O Destaque, o analista Mauro Silva defende que a FRELIMO dispõe de órgãos próprios para discutir as suas divergências e que os seus membros devem recorrer a essas estruturas.

Quando da minha intervenção defendi que o Partido FRELIMO é uma organização política que tem órgãos devidamente conhecidos, devidamente organizados, devidamente consistentes, órgãos que funcionam, porque são funcionais. E estes órgãos, seja como for, precisam que os seus membros coloquem isso mesmo: os órgãos já funcionaram”, afirmou.

Mauro Silva recorda que a própria organização política estabelece o princípio da unidade e da crítica dentro das estruturas partidárias.

O Partido FRELIMO também já nos ensinou que, através do princípio da unidade, crítica e unidade, mas dentro dos órgãos, é no interior de qualquer tipo de discussão que possa acontecer, mas dentro desses mesmos órgãos”, disse.

Na sua leitura, esta orientação está relacionada com a responsabilidade que atribui à FRELIMO perante o país, os seus militantes e as instituições do Estado.

Porquê? Porque o Partido FRELIMO é um partido com bastante responsabilidade, ou, por outra, uma responsabilidade acrescida, uma responsabilidade para com o povo moçambicano, uma responsabilidade para com o próprio partido em si, os seus membros, suas instituições, responsabilidade com os feitos do próprio Estado, construção e edificação de instituições cada vez mais fortes”, explicou.

É neste contexto que considera importante preservar a discussão interna nos órgãos do partido.

Por isso que a primazia da unidade, crítica e unidade dentro dos órgãos é fundamental para colocar num bom caminho aquilo que são os objectivos de um país, que a própria FRELIMO criou, de um país que a própria FRELIMO recebeu depois dos Acordos de Lusaka, em 1974, de um país que a perspectiva agora é outra, que é a perspectiva de independência económica”, afirmou.

O caso de Nampula

Sobre o episódio envolvendo Eduardo Abdula, Mauro Silva considera necessário ter em conta o contexto em que as declarações foram proferidas.

Atendendo e considerando o contexto pelo qual o discurso, em jeito de desabafo, uma espécie de denúncia, em jeito de desabafo do governador da província de Nampula, quando fazia a marcha em saudação da escolha, por parte do Comité Central, da província de Nampula para acolher, entre os dias 25 de Julho de 2027, o 13.º Congresso, é relevante que a gente não salve de vista”, afirmou.

Na sua interpretação, Abdula, apesar de ser membro do Comité Central e governador de Nampula, encontrava-se naquele momento numa actividade partidária, e não a exercer as funções de governador.

O que aconteceu aqui? A conta é essa aqui: quem está a falar, apesar de ser membro do Comité Central, que também é, ao mesmo tempo, governador de uma província, tem o seu povo, tem o seu território, ali não estava como governador. Ali estava como alguém que foi, ou que tem responsabilidade de facto pela província, mas ao nível do partido”, explicou.

Mauro Silva entende que Abdula tinha à disposição diferentes estruturas partidárias para apresentar as suas preocupações.

Então, como é que um convidado pode falar em nome dos membros do partido de um local onde, primeiro, tem um primeiro secretário provincial; segundo, tem um secretário, posso dizer, um primeiro secretário distrital, ao qual ele foi, ao nível do distrito de Nampula”, questionou.

E prosseguiu:

Acredito, ali também tinha o chefe da Brigada Central para a assistência da província de Nampula, não é? Ou pelo menos a pessoa não estava ali, mas existe alguém que responde ligado ao Comité Central. Existem outros órgãos também, que vêm logo a seguir, como o próprio Comité Central, como a Comissão Política, como o Secretário-Geral, o Secretariado, e por aí em diante.”

Para o analista, a exposição pública das questões pode transmitir a percepção de que as estruturas partidárias não estão a ser suficientemente valorizadas.

Foi logo falar assim, de forma aberta e em público. Parece que ele não confia nas instituições, parece que há ruídos, ou há qualquer coisa que não está a ser absorvida aqui na sua máxima compreensão de que existem, efectivamente, órgãos, que ele tem acesso e que pode falar de forma aberta, nem que seja através de uma carta, nem que seja de um telefonema ou qualquer coisa assim”, declarou.

Mauro Silva defende, por isso, que os membros devem valorizar as estruturas internas e os mecanismos existentes para a discussão de divergências.

Então é importante que valorizemos os órgãos, é importante que valorizemos as gestões, é importante que valorizemos os esforços de reconquista e do aprofundamento da aproximação, ou pelo menos da aproximação, não, mas vamos dizer assim, de um alargamento da nossa base de militantes”, afirmou.

“A FRELIMO é do povo”

Na sua intervenção, Mauro Silva também destacou aquilo que considera ser a necessidade de preservar a imagem e a coesão da organização.

É importante que a gente aprofunde. Porquê? Porque a FRELIMO é do povo, está com o povo e é para o povo”, disse.

Na sua leitura, as divergências expostas desta forma podem ter consequências para os próprios intervenientes e para a percepção da organização.

Estes presumíveis ruídos, eles não fazem nem bem à pessoa que disse, nem bem à sua província, que, graças a uma escolha selecta do Comité Central, foi escolhida, nem, vamos assim dizer, vai fazer bem, nem a todos que acreditavam ou acreditam nesta pessoa”, afirmou.

Mauro Silva apelou ainda ao respeito pelas estruturas e pelos diferentes níveis de organização partidária.

É importante que valorizemos as nossas instituições, os nossos símbolos, as nossas pessoas, os nossos órgãos superiores, que também nós respeitemos a nós mesmos e aos outros que fazem parte do nosso comité, do nosso círculo, da nossa zona, da nossa província, do nosso distrito, mas, acima de tudo, respeitemos a marca FRELIMO, porque a FRELIMO é do povo, a FRELIMO está com o povo e a FRELIMO é para o povo”, declarou.

“Fazer diferente para ter resultados diferentes”

O analista associou ainda o debate às declarações do Presidente da FRELIMO, Daniel Chapo, sobre a necessidade de introduzir mudanças na forma de actuação da organização.

E já diz o Presidente Daniel Chapo que, desta vez, temos que fazer coisas diferentes para atingir resultados diferentes, ou fazer as coisas de forma diferente, para termos resultados também que vão fazer a diferença”, recordou.

Para Mauro Silva, o momento deve servir para reforçar a coesão interna da FRELIMO e a sua capacidade de adaptação.

Por isso que, para mim, tudo isto se consagra numa FRELIMO cada vez mais unida, numa FRELIMO cada vez mais robustecida, numa FRELIMO cada vez mais atenta aos movimentos de mudança, mas que esta mesma FRELIMO também vai-se reajustar a essas mudanças”, afirmou.

Acrescentou que pretende ver uma organização com uma visão clara e orientada para o bem-estar da população.

E numa FRELIMO que, de facto, vai iluminar e vai continuar a iluminar os destinos do país através de um programa, de uma visão, de uma missão clara que sempre vai combinar muito bem-estar do povo”, disse.

No final, Mauro Silva voltou a defender o princípio da unidade e da crítica dentro dos órgãos partidários.

Por isso, apelamos à unidade, apelamos também à crítica dentro dos órgãos, mas também voltamos a apelar à unidade”, afirmou.

E concluiu:

O princípio da unidade, crítica e unidade deve ser norteador de qualquer tipo de intervenção, particularmente pública, quando o membro da FRELIMO está a comentar sobre a sua vida política deste mesmo partido. Por isso, é momento de reflexão, por isso, é momento também de união. Estamos juntos.”

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