“É preciso uma resposta regional”: João Feijó aponta crise estrutural como raiz da xenofobia na África do Sul

Maputo (O Destaque) – O analista e investigador João Feijó defende que os recentes episódios de xenofobia na África do Sul não podem ser explicados apenas pelo legado do apartheid. Para o especialista, o fenómeno resulta de uma combinação de factores económicos, sociais e políticos que se acumulam há décadas e exigem uma resposta conjunta dos países da África Austral.

Em entrevista ao Jornal O Destaque, João Feijó afirmou que o actual contexto de globalização e de intensificação dos movimentos migratórios tem alimentado sentimentos de insegurança entre sectores da população dos países de acolhimento.

Estamos a viver um fenómeno de globalização e de mundialização acelerada que acarreta migrações de pessoas. Todos estes fenómenos despertam nos países de acolhimento sentimentos de desprotecção e de ameaça por parte de populações que não são competitivas no mercado de trabalho. Isto faz baixar os salários e contribui para sentimentos de mal-estar junto da população.”

Segundo o investigador, este tipo de sentimento não é exclusivo da África do Sul, podendo ser observado também em Moçambique, na Europa e na América do Norte.

Isto acontece na África do Sul, mas acontece também em Moçambique. Em muitas zonas do centro e norte de Moçambique há um sentimento de invasão por parte de funcionários do Sul que aproveitam oportunidades locais. Encontramos também este tipo de sentimento nos países europeus e norte-americanos em relação aos imigrantes. Portanto, este sentimento é genérico e global.

João Feijó explicou que o caso sul-africano apresenta características particulares devido à sua história económica.

Historicamente, a África do Sul foi a potência económica da região e necessitava de muita mão-de-obra, sobretudo nas minas e nas quintas. Depois do apartheid surgiram novos investimentos, mas cada vez menos dependentes de trabalhadores por causa da tecnologia. Ao mesmo tempo, aumentaram o desemprego e a crise económica.”

Na sua perspectiva, a deterioração das condições económicas nos países vizinhos continua a empurrar milhares de pessoas para território sul-africano.

A pressão migratória provocada pelas crises no Zimbabwe, Moçambique e Malawi faz com que a África do Sul continue a ser vista como uma esperança. Só que hoje muitos acabam no emprego informal e indocumentado, o que aumenta os sentimentos de rejeição contra os imigrantes.

Questionado sobre a possibilidade de existir uma agenda política por detrás dos ataques xenófobos, Feijó considera que alguns líderes poderão aproveitar-se do ambiente de tensão, mas entende que o fenómeno tem causas mais profundas.

É provável que existam líderes oportunistas que aproveitem esta situação para ganhar popularidade. Mas parece-me que este é um movimento muito orgânico, resultado de décadas de desemprego e de crise económica, agravado pelo aumento do preço dos combustíveis e do custo de vida.”

Sobre a capacidade de Moçambique responder ao regresso de cidadãos expulsos ou forçados a abandonar a África do Sul, o investigador foi cauteloso.

Temos que ser realistas. O Estado moçambicano é bastante frágil e não consegue sequer criar oportunidades suficientes para os cidadãos que já vivem no país. É precisamente por isso que muitos acabam por emigrar.”

Na sua opinião, o ideal seria que o Estado dispusesse de equipas de assistência social nas fronteiras para acolher e encaminhar os repatriados, identificando as suas competências e facilitando a sua reintegração. Contudo, reconhece que a actual realidade económica limita essa possibilidade.

Seria importante haver assistentes sociais na fronteira, centros de emprego e mecanismos de integração. Mas onde estão os empregos? Estamos perante uma crise estrutural e o Estado tem pouca capacidade para resolver este problema sozinho.

Para João Feijó, a solução passa necessariamente por uma abordagem regional envolvendo todos os países da África Austral.

É preciso uma resposta regional. Não basta olhar apenas para Moçambique ou para a África do Sul. É necessário integrar as economias da região, diversificar os modelos de desenvolvimento e criar empregos.

O investigador considera igualmente que a instabilidade económica e política em vários países da região contribui para o aumento da migração.

Os problemas de má governação, aliados a modelos económicos que criam poucos empregos, continuam a alimentar estes fluxos migratórios. Enquanto estas questões não forem enfrentadas de forma séria, será difícil reduzir a pressão sobre a África do Sul.

João Feijó defende ainda uma maior cooperação entre os países da SADC, bem como o envolvimento de parceiros internacionais, incluindo a União Europeia, BRICS, G7 e outras organizações multilaterais, para promover modelos de desenvolvimento mais inclusivos e geradores de emprego.

Concluindo, o investigador alerta que o combate à xenofobia exige mais do que medidas de segurança.

As fronteiras são muito porosas e há décadas de mobilidade entre estes países. A solução passa por integrar as economias, criar oportunidades para todos e abrir canais de diálogo onde estas questões possam ser discutidas de forma responsável entre os Estados.”

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