Maputo (O Destaque) – O analista político Alexandre Chiure considera que o apelo lançado por Graça Machel para que os moçambicanos regressados da África do Sul recomecem a vida nas suas zonas de origem representa uma mensagem de esperança, mas defende que a realidade económica de Moçambique continua a dificultar esse regresso.
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Destaque, Chiure afirmou que os factores que levaram milhares de moçambicanos a emigrar para a África do Sul permanecem inalterados, sobretudo a falta de emprego e de oportunidades de negócio.
Segundo o analista, muitos dos cidadãos moçambicanos afectados pela actual vaga de ataques xenófobos sobrevivem através do comércio informal e da venda ambulante, e não exercem actividades em grandes empresas ou indústrias sul-africanas.
“O Governo moçambicano não tem, neste momento, condições para oferecer emprego ou oportunidades suficientes para absorver estas pessoas. Por isso, muitos poderão regressar temporariamente, mas acabarão por voltar à África do Sul, porque as razões que motivaram a sua saída continuam a existir”, explicou.
Relativamente ao apelo de Graça Machel para que os moçambicanos não respondam aos ataques com actos de retaliação, Chiure considera que a posição da activista é acertada.
“O nosso país depende fortemente da África do Sul em diversos sectores. Uma eventual retaliação poderia prejudicar mais Moçambique do que os próprios sul-africanos”, defendeu.
Questionado sobre a influência política e diplomática de Graça Machel, antiga primeira-dama de Moçambique e viúva do antigo Presidente sul-africano Nelson Mandela, Alexandre Chiure reconheceu que a activista continua a ser uma personalidade respeitada no continente africano. Contudo, entende que essa influência dificilmente será suficiente para travar, por si só, a onda de violência xenófoba.
Na sua perspectiva, Graça Machel poderá desempenhar um papel importante ao persuadir os líderes da região a promoverem uma sessão extraordinária da SADC dedicada à imigração e à xenofobia, incentivando uma resposta regional ao problema.
“O papel que ela pode desempenhar é mobilizar os líderes da região para discutirem seriamente esta questão. A nível da SADC, a sua influência pode ser importante”, afirmou.
Chiuri acrescentou que as relações diplomáticas entre Maputo e Pretória permanecem estáveis defendendo que o diálogo entre os dois governos nunca foi interrompido. Para o analista, o Presidente Daniel Chapo poderá voltar a abordar directamente o assunto com o seu homólogo sul-africano, exigindo maior protecção para os cidadãos moçambicanos residentes naquele país.
Sobre a persistência dos ataques, Alexandre Chiure considera existir uma discrepância entre o discurso oficial do Governo sul-africano e a realidade observada no terreno.
Embora Pretória continue a defender uma política de “tolerância zero” contra a xenofobia e tenha anunciado o reforço da segurança, o analista entende que os episódios de violência continuam a ocorrer, levantando dúvidas sobre a eficácia das medidas adoptadas.
Na sua análise, a questão da xenofobia está também a ser influenciada pelo actual contexto político interno da África do Sul, marcado pela aproximação das eleições municipais e pelo crescente discurso de que os estrangeiros são responsáveis pela redução das oportunidades de emprego para os cidadãos sul-africanos.
Segundo Chiuri, “alguns Partidos políticos poderão estar a beneficiar desse sentimento popular, transformando a imigração num tema central da disputa eleitoral”. Concluiu
