Derick Mulatinho avisa: “subida dos transportes pode sufocar o bolso das famílias mais carenciadas”

Maputo (O Destaque) – Uma eventual subida das tarifas dos transportes semi-colectivos de passageiros poderá agravar significativamente o custo de vida em Moçambique e colocar ainda mais pressão sobre o orçamento das famílias de baixa renda. O alerta foi lançado pelo especialista financeiro Derick Mulatinho, que considera que o aumento dos preços dos transportes terá efeitos em cadeia sobre toda a economia nacional.

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Destaque, Mulatinho advertiu que os maiores prejudicados serão os cidadãos que dependem diariamente do transporte público para trabalhar, estudar e garantir o sustento das suas famílias.

Há pessoas que trabalham apenas para garantir o sustento do dia. Se gastarem mais no transporte, terão menos recursos para alimentação, educação e outras despesas essenciais”, afirmou.

Segundo o especialista, um aumento das tarifas não afectará apenas os passageiros, mas também toda a cadeia de abastecimento, uma vez que os custos de transporte de mercadorias acabarão por ser reflectidos no preço final dos produtos.

Quando sobe o transporte, sobe também o custo de levar produtos aos mercados, e esse encargo acaba sempre por ser suportado pelo consumidor final”, explicou.

Na sua análise, os pequenos comerciantes e vendedores informais estarão entre os primeiros a sentir o impacto, pois dependem dos transportes para adquirir e distribuir mercadorias. Como consequência, alimentos e bens de primeira necessidade poderão tornar-se ainda mais caros para os consumidores.

Derick Mulatinho alertou igualmente para os reflexos que a medida poderá ter na produtividade económica. Segundo explicou, muitos trabalhadores poderão reduzir as suas deslocações ou até abandonar determinadas actividades caso os custos do transporte se tornem incomportáveis.

Para o economista, a discussão sobre as tarifas deveria ter sido acompanhada de medidas de mitigação logo após o aumento dos preços dos combustíveis. Na sua perspectiva, uma simples actualização das tarifas não resolverá os problemas estruturais do sector.

O Estado deveria ter preparado mecanismos de compensação capazes de minimizar os impactos sobre os operadores e sobre os cidadãos”, defendeu.

Como alternativa, Mulatinho propõe uma revisão do actual modelo de compensação atribuído aos transportadores, argumentando que os apoios têm beneficiado sobretudo os proprietários das viaturas, enquanto os motoristas continuam a enfrentar dificuldades para suportar os custos de operação.

O especialista defende ainda um diálogo envolvendo o Governo, proprietários, motoristas e transportadores, com vista à definição de soluções equilibradas para todas as partes.

Outra proposta apresentada passa pela criação de mecanismos de apoio directo aos cidadãos mais vulneráveis, através de cartões electrónicos de transporte destinados às famílias de baixa renda.

Na sua visão, esta medida permitiria direccionar os subsídios para quem realmente necessita, tornando a política social mais eficaz e reduzindo o impacto do aumento das tarifas sobre os agregados familiares.

Mulatinho advertiu também que uma eventual subida dos transportes poderá impulsionar uma nova pressão inflacionista. Recordou que os combustíveis e os transportes já contribuíram para o aumento do índice geral de preços e que um novo reajuste poderá encarecer ainda mais alimentos, bebidas e outros bens essenciais.

Para o especialista, qualquer decisão sobre a revisão das tarifas deve ser acompanhada de medidas de protecção social e de um diálogo amplo entre o Executivo e todos os intervenientes do sector, evitando que o maior peso da crise recaia sobre as famílias com menor capacidade financeira.

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