El Niño ameaça reduzir chuvas no Sul e Centro de Moçambique, alerta Rui Silva ambientalista

Maputo (O Destaque) – O ambientalista Rui Silva alerta que a ocorrência do fenómeno climático El Niño poderá provocar uma redução significativa das chuvas nas regiões Sul e Centro de Moçambique nos próximos meses, colocando em risco a produção agrícola, o abastecimento de água e diversos ecossistemas. Em entrevista exclusiva ao Jornal O Destaque, o especialista apelou à adopção de medidas preventivas por parte do Governo, das comunidades e da sociedade em geral.

Segundo Rui Silva, o El Niño é um fenómeno climático natural que ocorre no Oceano Pacífico Tropical. “Quando as águas da parte central e oriental do oceano ficam mais quentes do que o normal, alteram os padrões da atmosfera, afectando a chuva e as temperaturas em várias partes do mundo, incluindo Moçambique”, explicou.

No contexto nacional, o ambientalista refere que as regiões Sul e Centro poderão enfrentar uma diminuição das chuvas e até períodos de seca, enquanto algumas zonas do Norte poderão registar precipitação acima da média, aumentando o risco de cheias e inundações.

“As principais consequências são a redução da produção agrícola, a escassez de água para o consumo humano e para os animais, o aumento do risco de incêndios florestais, impactos na produção de energia hidroeléctrica devido à diminuição dos níveis das barragens e alterações nos ecossistemas e na pesca”, afirmou.

Rui Silva considerou positivo o trabalho preventivo iniciado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INAM), mas defendeu que a população também deve assumir um papel activo na gestão dos recursos hídricos.

As pessoas devem fazer os possíveis e os impossíveis para poupar água. Muitas vezes deixamos a torneira aberta durante a higiene pessoal, ao lavar a loiça ou até lavamos os carros diariamente sem necessidade. Essa água poderá fazer-nos falta no final deste ano”, advertiu.

Questionado sobre a degradação ambiental, o especialista foi categórico ao afirmar que o desmatamento agrava os efeitos do El Niño.

Se continuarmos a destruir as florestas, estaremos a reduzir a capacidade de retenção da água no solo. A protecção das florestas, das bacias hidrográficas e o plantio de árvores ajudam a combater a erosão e a degradação dos solos, reduzindo os efeitos das alterações climáticas”, explicou.

Durante a entrevista, Rui Silva defendeu uma maior coordenação entre o Governo, os municípios, o sector privado, as organizações internacionais e as comunidades locais para reforçar a capacidade de resposta aos fenómenos climáticos extremos.

É importante integrar a adaptação às alterações climáticas nos planos nacionais e locais de desenvolvimento, distribuir sementes resistentes à seca antes da época agrícola e reforçar os sistemas de alerta precoce, sobretudo junto dos líderes comunitários, que são a principal ligação com as populações”, referiu.

O ambientalista apelou ainda a um maior investimento na educação ambiental, através da comunicação social e de campanhas de sensibilização.

Temos de mudar a mentalidade. Muitas vezes pensamos que estas situações só acontecem aos outros, quando, na realidade, todos somos afectados pelas mudanças climáticas”, afirmou.

Entre as prioridades, Rui Silva considera essencial expandir os sistemas de irrigação nas zonas agrícolas estratégicas, garantir água para as populações e para os animais, promover técnicas de conservação dos solos e distribuir sementes adaptadas às novas condições climáticas.

Sobre a actuação do Executivo, o especialista reconheceu avanços na protecção ambiental, mas salientou que persistem desafios.

Tenho notado que o Governo tem desenvolvido um trabalho importante na área ambiental e na resposta às alterações climáticas. Claro que ainda existem desafios, sobretudo na obtenção de apoio internacional, porque Moçambique é dos países que menos poluem, mas está entre os mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas”, concluiu.

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